O trágico dia que conheci meu ídolo

Paulo Eduardo

Sempre fui fã do Dias Gomes. Ele escreveu vários livros, peças de teatro, novelas, como por exemplo: O Pagador de Promessas, O Bem-Amado, Roque Santeiro, Sucupira Ame-a ou Deixe-a, Odorico na Cabeça, entre muitas outras obras valorosas. Ele era membro da Academia Brasileira de Letras, um importante escritor brasileiro. Até aquela data, só o conhecia pelas obras, pessoalmente, nunca tive o prazer.
Era noite de sexta feira, 18 de maio de 1999, próximo de 23 horas, eu aguardava o início de meu programa na Rádio Capital de São Paulo, e conversava, com meu produtor Guilherme Bentana, detalhes do programa daquela noite e quais as matérias que estavam na pauta. Os estúdios da Rádio ficavam na AV Nove de Julho em São Paulo, um corredor bastante movimentado, inclusive nas noites de final de semana. Era início de mais um final de semana e estava intenso o transito dos dois sentidos da avenida. De repente um barulho muito forte. Uma colisão? Fomos até a calçada e ali estava um automóvel com as rodas para cima, havia capotado. Tratava-se de um taxi alternativo, um Pálio Branco. Duas pessoas feridas colocadas em um que passava e parou para dar assistência. No chão, ao lado do carro o corpo de um homem. Nos aproximamos e foi possível enxergar um crachá com o logotipo da Rede Globo e um ticket do Restaurante Famiglia Mancine, tradicional Cantina, localizada próxima ao local do acidente. Ficamos em dúvida se a vítima fatal era o escritor Dias Gomes, pois imaginei que ele, pela importância que tinha, não estaria usando um veículo alternativo. Telefonei para o restaurante e fui informado que ele havia jantado lá com a esposa e preferiu não aguardar um taxi oficial e embarcou em um clandestino. Liguei também para a Rádio Globo São Paulo e depois para o Rio. Informei o que estava ocorrendo. Já passava o tempo, 15 minutos do acidente e o corpo junto ao veículo. Logo em seguida uma viatura do policiamento de transito chegou e as providencias foram sendo tomadas.
Após ter tomado as providencias, fui para o estúdio, pois o programa estava prestes a começar, e era ao vivo para todo Brasil. Colocar os nervos no lugar só foi possível com a consciência profissional do dever a ser cumprido. Desejei muito conhecê-lo, nunca foi possível estar em alguma ocasião onde ele esteve autografando suas obras, mas, por obra do destino, coube a mim, presenciar o lamentável acidente e tomar as primeiras providencias. A esposa e o motorista, socorridos com ferimentos leves, logo tiveram alta.
Alguns acreditam que o destino determina os fatos; outros, porém, defendem que todos temos o livre arbítrio para interferir nos fatos e determinar os enredos.
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Paulo Eduardo Temple, jornalista e radialista

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