Quem demite quem?

Camilo Irineu Quartarollo

A política de desconstrução ou desmonte atual traz um triste e sério paradoxo ao mundo do trabalho, quer ao serviço privado ou público, com a reforma trabalhista e da previdência – uma ligada à outra – pois, ora, o ativo paga o aposentado que contribuiu com o seu quinhão.
Vide as notícias:
A demissão, como um dos primeiros atos do novo governo esvaziou a Casa Civil, lá 16 funcionários foram desligados de uma equipe formada por 17 pessoas numa comissão da Presidência da República. Até hoje, faltam servidores para tocar pedidos de exoneração e nomeação. Quem demite quem? Nos dias posteriores a Casa Civil renomeou funcionários que havia desligado para tentar resolver o problema.
No INSS, havia quase dois milhões de pedidos de aposentadorias parados por 45 dias e o governo sem conseguir capitanear apela para contratação temporária de servidores aposentados, aos próprios demitidos do INSS! Tentou sim fazer com militares essa atividade burocrática, mas isso não é coisa de morros do Rio ou praias do Haiti, atividades às quais os soldados estão mais bem preparados e equipados.
Em décadas passadas era-se comum ouvir nas ruas aos empregados ditos vagabundos que não punham a camisa da empresa “rá, ré, ri, ró e ruuua”. Era fácil a qualquer chefete se fazer de macho alfa dentro de uma repartição com amplos poderes. Hoje, as gestões, atendimentos ganharam outras filosofias de trabalho e organização, inclusive com incentivo à criatividade ou home office.
Notadamente no Brasil, uma das carreiras técnicas bem avaliada e muito bem é o da diplomacia brasileira, que também foi atacada. Os grandes acordos dos negócios e parcerias entre o Brasil soberano e nações pelo mundo nem sempre conhecidos, e se o são, são reconhecidos como méritos de um líder político e não tanto das mãos suadas e gravatas amassadas dos diplomatas e técnicos de carreira. Entretanto, servidores de carreira também vieram a assumir cargos ministeriais, como justo reconhecimento de capacidade e confiança.
Desde o tempo de Collor servidores públicos foram eleitos vilões de um Estado pesado, “inchavam a máquina, davam gastos excessivos, improdutivos” ao caçador de marajás de Alagoas, que não pegou um marajá sequer, que eu saiba, aliás, pegam sempre os criados mais pobres. Uma visão simplista de Estado, pois mesmo com todas as mazelas, a inteligência brasileira se formou no serviço público também. Vide planos econômicos exitosos como o Real. Há notícia de que desde os tempos dos militares já se faziam ajustes em planilhas, mas o tempo dos computadores ainda não havia chegado. Quando chegou foi possível cruzar dados e ter uma radiografia da economia do país, um PIB mais preciso, isso possibilitou um plano econômico, ainda que de compreensão não tão simples a quem vê pela televisão ou comenta com num círculo de bar, às esquinas, estes cidadãos que sentem pelas consequências do plano ou vão depositar seu voto a cada quadriênio. Há os que vão como se fossem a um turfe e elegesse um favorito ou azarão, mas elege um servidor público. Os de carreira têm de fazer concurso de provas ou de provas e títulos (Constituição Federal).
O êxito de uma boa gestão depende não de um herói com a espada desembainhada, mas de equipes bem administradas, de trabalho e suor de servidores públicos.
Impressão que se tem é a de que quer que a coisa estoure mesmo! Será que o bolso do próximo é a primeira ou única coisa a se cortar, não existem gorduras, privilégios, isenções onerosas a empresas no congresso, desperdícios no próprio serviço a ser cortado? Nos altos escalões, acordões de votações e liberação de verbas ou previdências imexíveis não há nada a ser cortado? Deixe-nos trabalhar, ora pois, existem muitos servidores comprometidos com a nação. Um país não se faz sem serviços públicos em Saúde, Educação, Justiça, Economia, Diplomacia, Social e outras tantas áreas, e, se temos servidores forjados nestas áreas, porque atacá-los? Sejam de quais ideologias forem, desde que atuem dignamente na função pública de exercício, que importa é o resultado. Não importa se o gato é branco ou preto desde que pegue o rato, disse Deng Xiao Ping nos anos 70 e a china hoje mostra que não tem medo de paradoxos, resolve sem ideologia as coisas mais difíceis, com sucesso e sem alarmismo.
Essa política do corta-corta vai acertar a mão do carrasco. O corte feito na reforma trabalhista pôs um batalhão enorme no desalento e sem comprar, sem a economia girar e isso pode demitir até o ministro da economia com o tempo.
Para mim, o governo está jogando a água suja com a criança que se banhou dentro.
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Camilo Irineu Quartarollo, Escrevente Judiciário, escritor, diagramador, capista, ilustrador, editor e autor do livro A ressurreição de Abayomi entre outros

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