Gripezinha!?

Camilo Irineu Quartarollo

As religiões estiveram sempre inter-relacionadas com doença e muitas vezes associada a ira dos deuses. A morte, motora da filosofia e religião, sempre balizou o comportamento social humano, criando regras ditas morais.
O confinamento de leprosos nos tempos bíblicos e da idade média é um pouco da nossa quarentena atual pelo Coronavírus, ainda que de forma mais esclarecida. Nos tempos bíblicos, de endemias, falta de higiene, as doenças grassavam e, sem explicações científicas ou laboratórios de hoje, a explicação ficava no âmbito do sobrenatural, ainda que a religião não fosse vista com o fundamentalismo de alguns simples leitores de um texto que tem uma carga histórica e de vidas. Os sacerdotes judeus eram médicos, cabia a eles ver se a lepra havia avançado, de que tipo (72 descritos) e se devia confinar o infeliz – não foi esta a recomendação de Jesus aos dez leprosos? Que por certo conhecia os tipos e avanços da doença, por certo os sacerdotes saberiam o estágio que, ao que se depreende, era inicial.
Muitas vezes a lepra na contínua ausência de assepsia levava o doente inicial à cegueira pelo coçar os olhos, visto que esta lepra antiga não era o mal de Hansen, mas doenças associadas à pele somente.
O quadro do oriente médio e grupos como fariseus, essênios e sacerdotes era o da profilaxia, um ritual de lavar as mãos e se cuidar da higiene para evitar doenças. Manter separados, puros, longe de doentes e mortos. O leitor bíblico incipiente vai achar que eles eram simplesmente egoístas, maus, porém, havia uma razão histórica de doenças. Neste sentido, a promiscuidade, os “pecados” do sexo, traziam doenças venéreas e outras para dentro da comunidade.
Os que tinham anticorpos eram considerados agraciados pelo divino, protegidos, escolhidos até. Na idade média da Europa perdeu-se dois terços da população e ainda outras epidemias e gripes se sucederam. No Brasil, no século passado, muitos indígenas foram mortos pela gripe comum e algumas tribos envenenadas com ela por posseiros, sob o manto da boa ação – jogavam comida com vírus da gripe.
No advento da vacina, variolização ou equinação, aplicavam o sangue contaminado com varíola de uma vaca doente em uma pessoa e esta adquiria anticorpos contra a doença. Isso levou a um jargão ao senso comum de que a limpeza excessiva é inimiga da saúde, que o que não mata engorda. Isso talvez porque os mortos não falem ou não os escutem. Esse discurso canhestro e mal concebido vem à tona por alguns que acham o Coronavírus uma gripezinha!
Contudo, vão surgir outras cepas no futuro, assim como concepções, religiões, filosofias, hábitos, rituais, jargões, preconceitos e outras coisas que a cultura humana produz, ora bem, ora mal, e que Deus nos livre da ignorância ou do pretenso saber de chofre, frases repetidas, erros repetidos, nisso os vírus são mais inteligentes e estão à nossa frente.

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Camilo Irineu Quartarollo, escrevente judiciário, escritor, diagramador, capista, ilustrador, editor e autor do livro A ressurreição de Abayomi, entre outros

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