Quem está no comando

Vitor Pires Vencovsky

A história do Brasil está muito relacionada à agricultura. Nos últimos 520 anos, a economia brasileira se organizou a partir da exportação de produtos primários, como açúcar, café e, mais recentemente, soja. Nos primeiros quatro séculos, a sociedade plantou e colheu para atender os interesses da coroa portuguesa. Na época em que o café era o produto mais significativo, no século XIX, os ingleses foram os maiores interessados na produção e comercialização desse produto. Inclusive, monopolizaram por muito tempo o transporte de café ao porto de Santos através da ferrovia São Paulo Railway. Atualmente, os chineses são os maiores protagonistas e interessados na soja brasileira.

O controle de uma atividade econômica por países ou empresas globais não é novidade e continua sendo uma realidade muito presente nos dias atuais. As instituições Fundação Heinrich Böll e a Fundação Rosa Luxemburgo publicaram, em 2018, um atlas que mostra como determinadas corporações transnacionais controlam o que produzimos e comemos. O Atlas do Agronegócio mostra que no mundo há uma concentração de mercado em todas as atividades do agronegócio, resultado de grandes fusões e aquisições recentes. A publicação destaca, também, a concentração de terras nas mãos de poucos produtores, expansão da monocultura, aumento do uso de agrotóxicos, perda de qualidade do solo e redução da biodiversidade.

Quatro empresas globais representam 70% do mercado mundial de commodities agrícolas. São conhecidas como “Grupo ABCD”, iniciais das empresas ADM, Bunge e Cargill (americanas) e Louis Dreyfus (holandesa). Processam, transportam e comercializam diversas commodities, utilizando ativos próprios como navios, portos, ferrovias, silos, moinhos e fábricas. Em 2015 a estatal chinesa Cofco também se juntou a esse grupo como uma das principais tradings do mundo. A concentração de mercado também pode ser verificada na produção de alimentos, já que 50 fabricantes representam 50% das vendas globais dessa indústria. As 10 maiores fabricantes de alimentos em faturamento são: Nestlé, JBS (brasileira), Tyson Foods, Mars, Kraft Heinz, Mondelez, Danone, Unilever, General Mills e Smithfield.

O atlas destaca as fusões e aquisições da empresa brasileira 3G Capital. Com participação da Berkshire Hathaway, de propriedade de Warren Buffett, a 3G Capital se tornou, num período de 15 anos, a maior empresa de cerveja do mundo, a terceira maior operadora de restaurantes fast food do mundo e a quinta maior empresa de alimentos do mundo. Atua na indústria de bebidas (AB InBev, AmBev, InBev, Anheuser-Busch, Grupo Modelo, SABMiller), indústria alimentícia (Kraft Heinz, Kraft Foods, Heinz, Restaurant Brands, International, Burger King, Tim Hortons, Popeyes), varejo (Lojas Americanas) e Comércio Eletrônico (B2W Digital, líder em comércio eletrônico através da americanas.com, submarino, Shoptime e Sou Brato).

A publicação mostra que, de uma forma geral, o agronegócio não é tão “tech”, “pop” ou “tudo” como veiculado amplamente pelas mídias. Grandes grupos transnacionais controlam as informações, o mercado, os preços e as quantidades produzidas para atender seus próprios interesses. Resta aos milhões de produtores rurais distribuídos ao redor do mundo seguir as regras que regulam o agronegócio mundial.

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Vitor Pires Vencovsky, engenheiro, presidente da Academia Piracicabana de Letras; [email protected]

 

 

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