A polêmica do glifosato

Aline Meme Gallo

A crescente demanda pela produção agrícola no Brasil tem intensificado a utilização de agrotóxicos, cujas substâncias têm colocado em risco a saúde dos trabalhadores, produtores, consumidores e também do próprio meio no qual a aplicação está inserida, contaminando diretamente o solo, os lençóis freáticos, os diversos corpos d’água existentes nas proximidades de produções rurais e ainda contaminando a atmosfera, resultado da dispersão de partículas durante o processo de pulverização.
A utilização desenfreada desses produtos representa um fator preocupante no que se refere às principais causas de deterioração da qualidade dos recursos hídricos, refletindo intensamente na saúde humana pela exposição aos agrotóxicos. Inclusive, as altas toxicidades de alguns desses compostos são capazes de causar alterações nos organismos vivos das mais variadas formas.
No Brasil, o glifosato lidera o mercado no contexto de agrotóxicos, representando cerca de 33,6% dos comercializados. Ingrediente ativo dos herbicidas mais comuns, a exemplo do Roundup, o glifosato inibe a ação de uma enzima que é essencial para o crescimento das plantas. Uma grande polêmica versa sobre a utilização do glifosato e seus efeitos na saúde humana, contudo, os riscos do herbicida não estão relacionados somente ao princípio ativo glifosato, mas com toda a mistura variada e complexa composta nas formulações vendidas. Parte do problema que verte entre as informações conflitantes dispostas à população é que o princípio ativo, os sais e os surfactantes são analisados separadamente, quando a quantidade e os tipos de agentes são fatores determinantes e devem ser considerados conjuntamente.
Não obstante, a IARC – Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, instituição intergovernamental da OMS – Organização Mundial da Saúde, tem a missão de promover a colaboração internacional na pesquisa sobre o câncer. Em uma de suas várias monografias, a IARC relata que o glifosato é cancerígeno para os humanos, existindo ainda, uma positiva associação do glifosato com o linfoma não-Hodgking (IARC, 2006).
Nesse sentido, estudos comprovam associações positivas entre a exposição humana a agrotóxicos – incluindo nestes os herbicidas com princípio ativo glifosato – e problemas de saúde como o câncer de mama, trato reprodutivo, redução da fertilidade masculina e anormalidades no desenvolvimento sexual. Outro fator preocupante comumente relatado em amostras de pesquisas reflete que muitas destas substâncias são excretadas através do leite materno, constituindo, portanto, uma fonte de contaminação de recém-nascidos que atua negativamente no período crítico de desenvolvimento do sistema neurológico da criança sob amamentação, ocasionando prejuízos irreversíveis como doenças neurológicas e retardo mental.
Isto posto, é possível observar que mesmo as substâncias mais comercializadas e comumente aplicadas em qualquer tipo de produção agrícola, agrotóxicos os quais teoricamente representam menos riscos à saúde humana, são comprovadamente perigosas quando de sua direta exposição. Portanto, a ainda crescente intensificação do uso e aprovação desses produtos representa uma grave ameaça à saúde pública, devendo o Poder Público e a coletividade tratar da questão com seriedade e precaução, a fim de garantir o bem estar e saúde da população consumerista.

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Aline Meme Gallo, advogada ambientalista, pós-graduanda em Gerenciamento Ambiental pela USP

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