Educação & Afins -Texto, contexto e pretexto (ainda sobre “o caso da Zélia”)

Armando Alexandre dos Santos

Não imaginava que fosse ter tanta repercussão o artigo da última semana, no qual compartilhei com os leitores de “A Tribuna Piracicabana” velhas recordações de 30 anos atrás, quando nossas suadas poupanças se transformaram repentinamente em miragens do deserto. Até pessoas me pararam na rua, para dizer que tinham achado muito engraçado “o caso da Zélia”. Referiam-se, com essas palavras, à charge em que a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello figurava como modelo no ateliê de um artista.

Realmente, para quem viveu e vivenciou aqueles tempos, a charge marcou época. O tempo, entretanto, como devorador de todas as coisas (“tempus edax rerum”, já dizia o velho Ovídio), rapidamente sepultou no esquecimento o conjunto de fatos que tentei, na última semana, fazer reviver, ou melhor, revivescer no espírito dos leitores mais idosos.

À parte do caráter jocoso, o tema inspira uma reflexão sobre a importância do conhecimento contextual, para a compreensão plena dos acontecimentos. A contextualização espacial e temporal dos fatos deve ser preocupação contínua do historiador, para que seus leitores ou ouvintes compreendam bem a matéria exposta. Também nos estudos literários o conhecimento do contexto é de importância para a intelecção do texto – ou, em outras palavras, para se apreender sua plena significação. O conhecimento do contexto, com seus múltiplos aspectos (físico, psicológico, histórico, social, cultural etc.) permite ajustar com precisão o verdadeiro alcance das palavras e das frases, para assim captarmos bem a mensagem emitida pelo autor do texto analisado.

Recordo que há muitos anos acompanhei uma polêmica travada entre duas pessoas. Já não me recordo quais eram, nem mesmo lembro qual o tema da polêmica. Somente me ficou na memória que uma delas, no empenho de desacreditar a outra parte, citou entre aspas palavras escritas (ou proferidas) pela outra. Na réplica, a parte atacada defendeu-se com um hábil jogo de palavras, declarando que haviam “tirado o texto do contexto, só para usar como pretexto”.

Nunca esqueci essa combinação das três palavras (texto, contexto e pretexto). Um texto tomado isoladamente do seu contexto pode muitas vezes não ser bem entendido, pode ser interpretado diferentemente do que foi intenção do emissor. E pode ser manipulado por um adversário mal intencionado, que o usa como pretexto para seus fins dialéticos e/ou polêmicos.

Lembro que uma professora bastante controvertida há alguns anos proferiu, numa conferência pública, uma frase extremamente infeliz, uma verdadeira “boutade”. A filmagem da conferência, longa e prolixa, foi divulgada na íntegra pela internet. Alguém que não gostava dessa professora teve a ideia de destacar, do vídeo disponibilizado na internet, um trechinho de 2 minutos, com a frase desastrada, e o postou no Youtube. A postagem “viralizou” rapidamente e a professora recebeu críticas de todos os lados, sobretudo por parte de pessoas contrárias a ela, mas também por parte de pessoas que até gostavam dela, mas não podiam concordar com o disparate que ela tinha proferido num momento de infelicidade.

Como se defendeu ela? Defendeu-se malandramente, dizendo que a frase em questão não podia ser entendida fora do seu contexto. Com isso, se esquivou de explicar a inexplicável asneira que havia proferido e, ademais, ainda deixou insinuado que os divulgadores do videozinho haviam agido de má-fé.

Na verdade, em todo o resto da conferência (que fiz questão de ouvir e analisar cuidadosamente duas vezes) não havia nada, absolutamente nada, que permitisse sequer atenuar a péssima impressão causada pela frase infeliz. Mas a simples alegação de que o texto tinha sido tirado do contexto bastou para a desastrada conferencista salvar-se da “saia justa” em que se tinha metido.

Esperta, ela sabia que muito pouca gente teria paciência para ouvir e analisar a conferência inteira… Apostou nisso e o caso foi rapidamente esquecido. Ela agiu de modo intelectualmente pouco honesto. Mas, sem a menor dúvida, o princípio que alegou era muito verdadeiro: não se deve julgar uma conferência inteira por uma única frase, sem conferi-la com o respectivo contexto.

Armando Alexandre dos Santos é licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

 

 

 

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