Panis et circencis

José Machado

Passei toda a quarta-feira da semana passada, dia 4 de março, em trânsito e em Brasília, para onde, ao lado de outros ex-diretores, fui gravar um documentário sobre os 20 anos de criação da Agência Nacional de Águas. Por conta dessa agenda apertada, não me informei sobre os assuntos noticiosos ao longo do dia.

Qual não foi minha surpresa e perplexidade quando, ao final do dia, já em Piracicaba, informei-me, acessando vídeo no celular, da cena burlesca de um comediante, com a faixa presidencial, imitando, na voz e no gestual, o atual Presidente da República, e distribuindo bananas aos jornalistas que fazem diariamente plantão na entrada do Palácio da Alvorada  – o Cercadinho do Alvorada, como é agora chamado – para entrevistar o titular da Presidência. Na sequência da cena, o Presidente Bolsonaro se junta ao seu imitador e, juntos, passam a fazer gracejos para a tradicional plateia patética que ali se reúne. Tudo combinado previamente. O intento, logo se percebe, foi o de, como se tornou costumeiro nos atos do atual Presidente, distrair a sociedade face ao anúncio nada agradável, feito naquele dia, do crescimento pífio do Produto Interno Bruto, que mede e desempenho da economia do país.

Pão e circo. Era assim que os donos do poder em Roma, na Idade Média, agiam para distrair a plebe diante da falta de comida e das condições de vida em geral.

Com cenas assim, como a de 4 de março, vamos, espero, nos dando conta do descalabro do país e do rumo que as coisas estão tomando: um Presidente usando de uma artimanha grotesca para iludir a sociedade sobre o fracasso do seu governo. O Brasil é hoje objeto de chacota no mundo todo, fazendo jus ao designativo, desairoso para uma nação, de “República Bananeira”.

Cenas de palhaçada de circo à parte, cabe perguntar por que o PIB brasileiro cresce com tão pouca intensidade, teimando em contrariar os prognósticos do Deus-Mercado?

Os cânones do neoliberalismo, na versão abastardada tupiniquim, prometeram que as medidas de austeridade no gasto público, mesmo que à custa da supressão dos direitos dos trabalhadores e do definhamento das políticas sociais, e o desmonte do Estado via privatizações absurdas e concessões fantasiosas, resgatariam a confiança dos investidores que passariam a investir em massa, e continuamente, ensejando o crescimento sustentado da economia. Essa performance formidável de um suposto mercado auto-regulado, livre das peias do Estado, não está acontecendo. E nem vai acontecer, nem aqui nem em lugar nenhum.

É o que sustenta André Motta Araújo, ex-Presidente da Emplasa, em artigo recente (https://www.scoopnest.com/pt/user/luisnassif/1205477813589094401-a-elite-americana-prev-o-fim-do-neoliberalismo-por-andre-motta-araujo), ao abordar sobre conclusões dos executivos das 200 maiores corporações americanas, reunidos no Business Roundtable, principal entidade de cúpula do capitalismo americano, presidido por Jamiei Dimon, CEO do mega banco J.P.Morgan Chase. São elas:

  • gerar “valor para o acionista”,  o principal objetivo das corporações, desde que adotaram há 40 anos o credo neoliberal, está errado e deve ser revisto porque esse ideia causou uma brutal concentração de renda, um desastre que vai colocar em risco o próprio capitalismo; ou seja, o mito neoliberal, de que se o acionista ganhar mais toda a economia prospera, é falso.
  • há 40 anos, segundo o Business Roundtable, 1% da população americana detinha 7% da riqueza. Hoje os mesmos 1% detém 22% da riqueza, a concentração de riqueza aumentou três vezes. A riqueza se concentra e não beneficia o conjunto da sociedade. Hoje o crescimento dos EUA está estagnado e não passa de 2% anual, apesar do desemprego ser baixo.
  • a explicação do Business Roundtable é clara: a economia americana não cresce porque os salários são baixos e a população está endividada, quer dizer, não basta o pleno emprego, é preciso distribuir renda, caso contrário a crise social pode levar à implosão do país.
  • a lógica de que a economia de mercado, livre das amarras do Estado, seria boa para todos, ricos, classe média e pobres, é falsa. A economia de mercado sem Estado é boa somente para os ricos e se isso não for corrigido o capitalismo não terá futuro porque ele só funciona dentro de uma sociedade organizada.
  • A conclusão do Business Roundtable vai mais além. Julga que é fundamental reconsiderar o papel do Estado como regulador e garantidor dos direitos da população em suas relações com o mercado, que, ao contrário do que imaginavam os neoliberais de raiz, não se auto-regula porque não é de sua natureza e nem de sua capacidade. É necessário um Estado forte para que a população seja protegida da ganância excessiva do mercado.

Essas conclusões se aplicam inteiramente ao Brasil destes tempos bicudos: a concentração de renda, que já é uma das maiores do planeta, só se eleva, o desemprego é altíssimo (ao contrário dos Estados Unidos) e o Estado definha. Enquanto, como vimos, nos países centrais consolida-se a convicção de que o neoliberalismo está morto e que é necessário se fortalecer o Estado, aqui o atual governo, tardiamente, faz o percurso oposto.

A sociedade brasileira parece estar anestesiada pelo panis et circensis e não percebe a proximidade da beira do precipício.

Concluindo, com André Motta Araújo: “…a ruptura pode vir de forma repentina, como no Chile e agora também na Colômbia, com manifestações destrutivas e intermináveis, produto da frustração acumulada de classes e pessoas que viram suas vidas serem destruídas pelo desemprego e regressão social.  A elite brasileira, historicamente atrasada, cega e surda, focada no mercado financeiro, dificilmente terá a capacidade revisionista de uma elite culta, mas fica o recado da elite americana”.

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José Machado, economista, professor universitário, foi prefeito de Piracicaba e deputado federal pelo PT de São Paulo

 

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