Burocracia e miséria

Almir Pazzianotto Pinto

 

Na edição de segunda (17.02), o jornal “O Estado” trouxe duas matérias do maior interesse. São documentos que retratam a verdade em que vivemos. Refiro-me à reportagem assinada por Pablo Pereira, “Cresce 31% número de adolescentes e crianças vivendo nas ruas de SP” (pág. A10), e à entrevista concedida à jornalista Sonia Racy pelo Dr. Mauro Ricardo Costa, auditor fiscal da Receita Federal, Secretário de Governo do prefeito Bruno Covas, homem que “gosta de encarar missões (quase) impossíveis” (pág. C2).

A entrevista ressalta que o Dr. Mauro Ricardo, quando Secretário de Finanças do prefeito José Serra, “Baixou um rigoroso programa de ajuste fiscal, controle de despesas e ampliação de receitas – algo bem próximo do que está fazendo agora na gestão Covas”. A matéria é ilustrada com a fotografia do senhor de 58 anos, grisalho, trajando elegante blazer de veludo, sem gravata, conhecido por ter servido a vários governos.

Já a reportagem de Pablo Pereira nada tem de agradável. Revela o lado infeliz de milhares de vidas. Traz a foto de Marcela, sentada em calçada da Praça Padre Manoel da Nóbrega, ao lado do Pátio do Colégio, “Um cartão postal de São Paulo”, com bebê de 1 ano no colo e o filho de 3 anos agarrado à barriga da mãe. Marcela, moradora de rua desde o ano passado, “passa o dia ao relento numa área que atrai turistas e concentra a Secretaria Estadual de Justiça e o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo”. No mesmo centro velho, “Bárbara, de 22 anos, outra mãe moradora de rua desde dezembro, cria a filha de 8 meses numa barraca de camping, sob uma marquise”.  As duas mães “são parte de um contingente de famílias desassistidas que cresceu nas ruas de São Paulo nos últimos quatro anos”. Levantamento feito por instituição de pesquisas revela aumento de 60% dos moradores de rua em 4 anos. O número saltou de 15 mil, em 2015, para 24 mil em 2019. Não reproduzirei o texto da entrevista. Quem transita por São Paulo dispensa informações sobre miséria. Se não for cego, testemunha diariamente a tragédia dos moradores de rua –  homens, mulheres, idosos, adolescentes e crianças – pedintes e drogados abandonados à própria sorte.

Ambas as matérias foram produzidas naqueles dias em que São Paulo e a Região Metropolitana estiveram assolados por chuvas torrenciais, com alagamentos, desmoronamentos, barracos e veículos destruídos, mortes e irreparáveis prejuízos para famílias pobres, de classe média, e pequenos comerciantes, como sucede ano após ano. Sobre moradores de rua e chuvas destruidoras nada foi dito na entrevista. Silêncio absoluto por parte de quem ocupa alta posição na administração financeira da cidade.

A tônica da entrevista do Dr. Mauro Ricardo se concentra na busca incessante da redução de despesas e na luta incansável pelo equilíbrio fiscal. O currículo revela que a vocação para Auditor Fiscal o transformou numa espécie de poderoso arrecadador de impostos. Nada mais parece lhe interessar. Nem sequer a miséria chocante exposta a moradores e turistas que circulam pelo centro histórico da cidade mais rica do País.

Nas últimas décadas o Brasil empobreceu. São mais de 12 milhões de desempregados e outros 40 milhões sobrevivendo abaixo da linha da miséria. O Dr. Paulo Guedes concentra-se na busca do equilíbrio fiscal. Estão na mesma linha Secretários da Fazenda dos Estados e Secretários Municipais de Governo ou de Finanças, como o Dr. Mauro Ricardo. Nenhuma palavra sobre a questão social.

Quem desejar ver desigualdade e miséria não precisa ir a Calcutá ou Mogadíscio. São Paulo está à mão. Basta conhecê-la além dos jardins. A pobreza e a fome são maus conselheiros, adverte a sabedoria popular. O motim da Polícia Militar cearense poderá se espraiar, registra O Estado na edição deste sábado. São Paulo se orgulha de ter Polícia Militar disciplinada, equipada e bem comandada. São quase 100 mil soldados. O recrutamento é feito nas camadas populares.  Há soldados, cabos e sargentos originários de famílias pobres, moradoras de comunidades como Paraisópolis. Fechar os olhos a possível insatisfação é algo que atingiria as raias da insanidade. Estamos no final de fevereiro. Como disse o vidente a Julio César, pouco antes de o punhal lhe ser cravado à costa: “cuidado com os Idos de Março”.

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Almir Pazzianotto Pinto, advogado, foi ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST); autor do livro “A Falsa República”.

 

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