E Todos os Vales serão Exaltados – (Valinhos: Cidades Visíveis III)

Pelos vales, pelos vales.  Sigo pelos vales sem saber se os vales serão mesmo exaltados. Olho pelas janelas de minha alma e vejo os vales discretos em seus caminhos que agora são os meus caminhos: Valinhos, entre casas e ruas tortas por onde ainda quase não tenho conseguido passear. Pelos vales, por todos os vales, tudo vale? Misturo nos seus campos a poesia de outros tantos lugares quando vejo, como em lembrança, suas poucas calçadas de paralelepípedo que ainda restam, quando ouço seus silêncios noturnos e distantes da agitação vizinha de suas vizinhas cidades. Pelos campos, pelos vales, pelas trilhas da verdade que ainda descubro um dia antes de anoitecer. Valinhos, tudo vale para ser e estar com você?

Porque todos os vales serão exaltados – até mesmo os que gelam dentro da gente na solidão das manhãs, até mesmo os que misteriosamente encerram suas rotas entre pedras e espinhos, até mesmo os que anunciam a esperança que floresce como o sol subindo ao longe em meio à geada. Porque todos os vales serão exaltados, mesmo que não haja exaltação final religiosa ou divina – porque os vales, quando valem a pena, são dentro da gente divinados religiosamente. Deles, dos vales e dos campos, são os mansos e os não tão mansos, os humanos desterrados de sua humanidade e os não-humanos mais que humanos animais – anjos-bichos de verdade. Pelos vales, por todos os vales, valem mais os que querem aprender a ser menos mesquinhos. Valinhos, aprendo então, em ti – agora – meu canto-cidade.

Toda carne é erva e toda beleza um campo em flor – diz o texto-sagrado-oração. Pois todo coração que souber valer a sua essência saberá esperar a floração da inocência, quando o que é torto será corrigido, o que é de ferro será despedaçado e até o bronze se quebrará em pleno vale encantado que, por ser encantado, (que pena!) em verdade nunca de fato haverá. Mas, mais vale esperar a exaltação da vida a ser vivida nos seus campos de sonhos – de cânticos bíblicos e de poética ilusão – do que render-se à realidade crua do chão da rua da razão. Por isso, que assim seja, abro bem os olhos da imaginação e agradeço, vale-verdade, a sua proteção. Depois, espero. Espero, triste-sei-que-espero, o dia tão-perto-longe de nossa terrena separação. Valinhos. Pelos vales, pelos vales, vale mais minha emoção.

Vale mais olhar o tempo que passa ainda sem pressa entre pés de serras quase esquecidos de suas gentes. Vale mais ouvir o vento que corre sentido entre árvores tantas também esquecidas de suas vidas. Vale mais tentar encontrar o seu centro, discreto, pequeno, mas real – do que perder-se em terras de arranha-céus onde sobra telhado e falta quintal. Talvez ainda haja tempo de deitar os olhos no que foi e no que há, antes que seus vales também sejam esquecidos de serem louvados, antes que suas sendas sejam niveladas pelo dinheiro que te corrói certeiro e te fatia em partes vendáveis e rentáveis de comissão em comissão. Melhor registrar no olhar o que resta ainda do seu espírito que não será, lamento, exaltado ante o pecado da ostentação: entre domínios e condomínios, seus vales e valinhos viverão apenas na recordação.

É tempo! É tempo! Pelos vales, por todos os vales! Deitemos um olhar concreto a te reconhecer e te exaltar em singela canção – é tempo, Valinhos. Que os tempos de hoje precisam mais do que nunca dos poetas para concretizar-te o infinito nas retinas da escrita que te inscreve (pois em mim te inscrevo) como cidade e visão. É tempo! É tempo! Pelos campos, pelos vales, vale mais o coração.

 

Alê Bragion, editor do Diário do Engenho

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