Irmã água

Camilo Irineu Quartarollo

 

E Deus disse separem as águas debaixo das águas de cima e surgiram montes e terras. O homem disse: façamos edifícios tão altos quanto possa se alcançar o céu e o chamaram de babel, onde ninguém mais se entendia, onde se entedia.

O homem disse: habitemos no centro, no núcleo mais importante, bonito e próspero. Ora, deixemos nossos vizinhos e parentes longínquos com seus problemas, que resolvam nas quebradas e pirambeiras, moremos no plano, onde diremos que é o umbigo do mundo,

Tudo se resolveu. Prédios de janelas envidraçadas, privativos, belos e flores, mas quando chove…

E Deus disse voltem as águas de cima e se misturem com as de baixo, então toda a porcaria humana se misturou, tudo que estava escondido sob os Itapevas da vida vieram à tona.

De tanto oprimida a natureza se rebela. As águas que limpam, saciam a sede e dão vida desabam em pranto, levam carros seguros, motos rápidas, sombrinhas esnobes, rodopiam sacos pretos de lixo, de coisas que se jogam à toa no chão público, de coisas que descem de onde não se sabe, nem mesmo que existiam, já se viu papéis, plásticos e até livros boiando. Embaixo o caipira daqui diz que tem a cobrona. Será que a cobrona existe mesmo e talvez a rebatizemos de Itapeva?

Alguém em meio ao tropel das nuvens ainda reclama que caiu a NET, que seus arquivos estão na nuvem, mas não na própria. Antes a luz só faltava onde não tinham postes, onde a luz não era para todos, onde casebres com toscas parabólicas abrigavam gente em novenas, mas veio a chuva lá também. Entretanto lá ainda se vê a luz, aquela luz que Deus fez antes do sol e da lua.

Para não delongar nesse lirismo, vejam, as obras necessárias à cidade só são vistas nessas horas, de chuvas abundantes e os dias de votação são em dias de sol escaldantes, feriado de pouco tráfego e muita festa e panfletos.

O que fazer com este Itapeva insepulto? Com as vias entupidas de veículos? Com os edifícios bonitos de apertamentos caros e condomínios (um aluguel com outro nome)? Com a concentração de pessoas numa mesma área chamada de Edifício, com belos nomes e se tornam referências de localização, mas onde se produz volumes gigantescos de esgoto e lixo que ninguém vê?

Se houvesse algum Noé moderno ele talvez dissesse que a arca, a grande arca, é a própria terra, que rios são caminhos, que as águas são – e disse Francisco de Assis – a “irmã água”.

 

Camilo Irineu Quartarollo, escrevente judiciário, escritor, diagramador, capista, ilustrador, editor e autor do livro A ressurreição de Abayomi, entre outros

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