PT, 40 anos

José Machado

 

O PT completou 40 anos de existência neste último dia 10 de fevereiro. Sim, há razões para celebrar, e eu me sinto no dever de fazê-lo, na condição de quem participou ativamente dos primeiros movimentos de sua fundação e veio a ocupar várias funções públicas relevantes como representante do partido.

O PT nasceu com o propósito de lutar por uma sociedade democrática e mais justa. Egressos da luta  contra a Ditadura Militar, lideranças de movimentos sociais e do movimento sindical, intelectuais e ativistas de setores progressistas da Igreja Católica foram os seus principais fundadores. Ao longo dos 40 anos muitos outros setores sociais foram se incorporando ao partido, alargando muito a base de filiados e simpatizantes e tornando-se um partido de massas.

O partido teve um papel destacado na Constituinte de 1988 e depois, numa sequência irresistível, conquistou governos municipais, governos estaduais e, finalmente, o poder central. Elegeu também crescentemente vereadores, deputados estaduais e federais e senadores. Pode-se dizer que o PT está consolidado nacionalmente, com mais de dois milhões de filiados.

Nessa já longa experiência o PT contribuiu decisivamente para ampliar os limites da democracia no país e tem sido responsável por inúmeras e importantes conquistas no campo social. Quando ocupou por treze anos consecutivos a Presidência da República, sob a responsabilidade dos presidentes Lula e Dilma, o país conheceu a superação de muitas mazelas sociais, como a fome, e se impôs no concerto internacional como nação soberana. Seria cansativo enumerar aqui as muitas realizações dos governos petistas nas três esferas da federação ao longo desses anos.

Nessa sua trajetória, sem que tivesse dado qualquer sinal de abandono do seu respeito às instituições   democráticas, o PT, contudo, contrariou interesses. Internamente ao país, mesmo que governasse para todos, sua opção preferencial pelos mais pobres e desassistidos gerou crescentemente reações contrárias de setores conservadores e reacionários. No plano internacional, a política externa ativa e altiva praticada atraiu a ira das potências hegemônicas, que passaram a enxergar no Brasil uma ameaça aos seus interesses. Estavam, assim, criadas as pré-condições para a urdidura do golpe contra a democracia, que efetivamente veio a se realizar em meados de 2016 com o impeachment contra Dilma.

Não obstante a enorme contribuição que o PT trouxe ao país, cometeu erros. O principal deles foi ter aceitado passivamente as regras do jogo político tradicional. No afã de se igualar materialmente aos demais partidos nas disputas eleitorais, sobretudo presidenciais, aceitou o financiamento privado e se acomodou pragmaticamente ao presidencialismo de coalizão, ao se aliar sem condicionantes a partidos estranhos ao seu ideário. Inevitavelmente, veio a tornar-se refém de uma lógica perversa que contaminou os princípios éticos do partido.

Outro erro importante do partido foi entregar-se ao ato de governar, porém distanciando-se da interação com as suas bases sociais, na crença, equivocada, de que, por si sós, elas seriam capazes de compreender o sentido geral das ações benéficas do governo em seu favor. Enquanto o governo se dedicava obsessivamente a aprimorar e ampliar as políticas sociais, procurando melhorar a vida dos brasileiros mais pobres, espalhava-se nas periferias das cidades, nas barbas do partido e do seu governo, uma onda conservadora, de cunho religioso, patrocinada e dedicada a neutralizar os avanços que estavam ocorrendo.

Essas dificuldades do PT foram percebidas pela sanha golpista e tornaram-se uma oportunidade para debilitar o partido e as suas lideranças, que passaram a ser amassados e triturados sem piedade, ao arrepio das regras democráticas. A mídia tradicional e o sistema de justiça foram colocados a serviço dessa estratégia, cujo escopo era tirar o PT do caminho. A condenação de Lula, sem provas, foi o ápice dessa trama diabólica.

Essa campanha sistemática, insólita e negativa contra o PT debilitaram-no severamente. Nas eleições municipais de 2016 o partido sofreu um significativo revés. Contudo, como contraponto, nas eleições presidenciais de 2018, a eleição só se definiu no segundo turno e, apesar da derrota, Haddad, o candidato petista, teve mais de 47 milhões de votos. Ademais, o partido elegeu a maior bancada na Câmara dos Deputados. Apesar do enorme desgaste, o PT não sucumbiu; pelo contrário, numa demonstração de que seu projeto histórico segue encontrando ressonância em amplas camadas na sociedade brasileira.

Para debater sua crise e encontrar alternativas para se revigorar, o partido realizou duas conferências nos três últimos anos. Nesse debate, evidenciam-se, de um lado, posições conservadoras que acreditam que os abalos sofridos são passageiros e serão superados gradativamente; de outro, há aqueles, como eu, que acreditam que são necessárias mudanças profundas, no ideário e no fazer partidário.

A realidade socioeconômica atual, particularmente no mundo do trabalho, é bem diferente daquela da fundação do PT. De quebra, há a crise climática planetária. A atualização programática torna-se um imperativo.

Por outro lado, pelas mesmas razões, é necessário se atualizar também o fazer partidário, inventando-se novas formas de aproximação e interação com as bases sociais, sobretudo na atual era estonteante das redes sociais. Isso requererá igualmente atualização interna, pois a atual estrutura de funcionamento partidário envelheceu, burocratizou-se e tornou-se obsoleta, comprometendo a convivência democrática e inibindo práticas inovadoras.

Os adversários do PT, mesmo sem praticarem autocrítica, esmeram-se em cobrar sistematicamente autocrítica do PT. Nenhum partido, contudo, mesmo na adversidade, tem uma vida interna tão intensa quanto o PT. Nenhum partido polariza tanto o país com ideias e propostas em defesa da democracia, da justiça social da soberania nacional como o PT.

Na atual quadra da vida do país, na qual sobram razões para temermos pela democracia e pelo desmonte das políticas sociais e da soberania nacional, a resistência democrática é necessária e, em que pese não ser única, a atuação persistente do PT é imprescindível.

Vida longa ao Partido dos Trabalhadores!

 

José Machado, economista, foi Prefeito de Piracicaba e deputado federal pelo PT

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