Normose, a enfermidade

Cecílio Elias Netto

 

Na década de 1980, famosos psicólogos e terapeutas detectaram duas graves enfermidades sociais. À primeira, deram o nome de normose, uma perda coletiva de noções, de conceitos, fenômeno que acontece automática e inconscientemente. Trata-se da formação do chamado “espírito de rebanho”. Multidões são levadas a seguir o exemplo da maioria, massificadas pelos meios de comunicação. Pertencer à minoria é tornar-se enfraquecido. Pois o rebanho tem que obedecer ao comando de seus pastores.

Normose, simplificando, é obedecer ao que “está na moda”. É o conjunto de hábitos coletivos que, parecendo normais, levam ao sofrimento, à angústia, até mesmo à morte.  Um dos exemplos clássicos é – ou foi – o cigarro. Sou testemunha disso. E vítima. Pois, ainda na puberdade, ensinaram-me que, para ser homem-macho, era preciso aprender a fumar. E o cinema, com seu poder de sedução, confirmava a errônea visão. Lembro-me, ainda hoje, das baforadas de Humphrey Bogart – apenas um dos muitos atores – em seus filmes imperdíveis. Eram de um charme irresistível. Aos 10 anos, adquiri a normose do cigarro. E só a abandonei aos 60, após um infarto…

A revolução francesa deixou-nos um legado simbolizado pelas três palavras tidas como sagradas: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. O capitalismo escolheu a liberdade. O comunismo, a igualdade. Nem um, nem outro, porém, cuidaram da fraternidade. Assim, a liberdade perdeu as estribeiras, servindo de pasto aos apetites dos poderosos que, em nome dela, criaram consumidores no lugar de cidadãos. O comunismo, em nome da igualdade, impôs a coletivização, a perda dos valores individuais. Sendo aceitas e seguidas, ambas as ideologias tornaram-se normoses que adoecem a humanidade, manipulando opiniões e “criando modas”.

Outra patologia, detectada pelos estudiosos, leva o nome de informatose, que é a normose da informática. Trata-se do uso indevido das extraordinárias descobertas da ciência e da tecnologia. Seus benefícios são extraordinários. Mas alimentam um perigo mortal. Basta observar o que ocorre nas famílias, na fragilização da unidade familiar. Pois, se já eram escassos os momentos de união, de diálogo, de intimidade – assistimos, agora, à sua quase completa abolição.  Cada um com seu celular, com seu computador e, portanto, com seu próprio universo. Que é falsamente individual.

A normose é patologia transformadora do mundo, de uma humanidade sem humanos. “Medroso de ser ele mesmo”, o ser humano será imitação de um outro. Apenas uma ovelha no imenso rebanho. E todo o maravilhoso significado da dignidade pessoal, da consciência particular, das noções questionantes entre direito e moral, lei e ética não terão mais sentido.

Um dos exemplos mais dolorosos dessa tragédia da normose e da informatose está na aceitação do armamento individual, na aprovação para o  uso de armas. A normose prega – e está sendo aceita – ser normal usar armas, ser normal tê-las na residência. E, que, portanto, é normal a fabricação de armas, essa que é a maior fonte de renda do mundo.

Mas é normal que essas armas acabem matando pessoas da própria casa?

 

Cecílio Elias Netto ([email protected])

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