Sobre o filme “A Educação Proibida”

O filme argentino A EDUCAÇÃO PROIBIDA, de 2012, com direção de Germán Doin e produção de Verónica Guzzo), é insistentemente inculcado nos cursos de Pedagogia brasileiros, que o apresentam como “tema de reflexão” para uma novo e alternativo modelo educativo. Produzido pelo sistema de crowdfunding e disponibilizado livremente pela internet, alcançou rapidamente milhões de reproduções e compartilhamentos. Sua meta explícita é divulgar “experiências pedagógicas inovadoras”, em oposição frontal ao modelo tradicional e convencional das escolas.

Assisti com muita atenção, pois o tema é de importância para professores e educadores. Pretendo, neste artigo e dos dois próximos, fazer uma crítica do filme e, no final, apontar nele alguns pontos positivos, a meu ver dignos de reflexão.

Inicialmente, devo dizer que é aborrecidíssimo. Sua duração é de duas horas e vinte e seis minutos, mas poderia ter sido feito, talvez com muito maior eficácia, num curta-metragem de no máximo 20 ou 25 minutos.

Na verdade, o conteúdo do filme se limita a uma meia dúzia de ideias, que são repetidas monotonamente e cansativamente ao longo de toda a exibição. Que ideias são essas?

1) O modelo de educação vigente se inspirou nas escolas militares prussianas do século XVIII e nas fábricas no século XIX, tendo como meta a disciplina e a otimização dos resultados. (Comentário meu: isso não é bem verdade; o sistema de educação predominante nas escolas, embora muito deformado nas últimas décadas, ainda se pode dizer que se inspirou em modelos muito anteriores, desenvolvidos ao longo dos séculos e milênios, tendo origem, em última análise, na velha Paideia grega).

2) O modelo de educação vigente não se destina à formação humanística dos alunos, mas à perpetuação das atuais estruturas sociais e econômicas da sociedade. (Comentário meu: essa afirmação, frequentemente feita pelos marxistas, é pelo menos bastante questionável; sobre o conceito de “formação humanística”, na ótica do filme, mais adiante falaremos);

3) A educação dos últimos séculos privilegiou a fragmentação do conhecimento, dividindo e subdividindo cada vez mais as “ciências”, de modo que é inteiramente perdida a noção da unidade e universalidade do conhecimento humano (Comentário: concordo inteiramente).

4) É preciso educar os indivíduos como pessoas, não como peças de um imenso maquinário, respeitando as individualidades e as peculiaridades de cada qual (Comentário: também concordo inteiramente, em princípio).

5) Os governos de um modo geral interferiram violentamente nos planos educativos dos respectivos países, chamando a si, de modo arbitrário e antinatural, funções que outrora eram atribuições da família, estabelecendo uma escola obrigatória de padrão único e até penalizando pais que desejam seguir, na educação de seus filhos, modelos alternativos. (Comentário meu: de pleno acordo).

6) O objetivo do filme não é impor um modelo de escola, mas é propor um dos muitos modelos alternativos possíveis: trata-se de um modelo novo que vem sendo aplicado em muitos lugares. (Comentário meu: na verdade, não é tão novo assim; é o já envelhecido modelo waldorfiano, estabelecido por Rudolf Steiner, falecido em 1925, e que teve início no modelo educativo de Rousseau, no século XVIII, com alguns complementos, em matéria de pormenor, montessorianos, paulofreirianos etc.).

Fundamentalmente, são essas as ideias centrais do filme. Elas são repetidas, incansavelmente, ao longo do filme inteiro, por 6 ou 7 professores adeptos do método, de vários países, em falas curtas e afirmativas, extraídas e recortadas obviamente de entrevistas mais longas, quase sempre sem que cada um dos recortes seja contextualizado. O efeito é que essas ideias são insistentemente repetidas, visando a convencer o espectador, não pela força intrínseca dos argumentos, mas pela sua reiteração à maneira de mantras. Uma música de fundo inspirada, também, em motivos indianos, reforça o método “mântrico” de o filme transmitir sua mensagem e persuadir os assistentes, não pela força intrínseca dos argumentos que oferece, mas pela reiteração de afirmações feitas quase à maneira de slogans.

Acresce que os 6 ou 7 professores são de países diversos, o que insinua a ideia de um movimento em expansão incontenível e destinado a triunfar num futuro mais ou menos próximo, tão logo vença as resistências e os preconceitos. Acresce, ainda, é que a cada 15 ou 20 minutos de repetição mântrica, há um ligeiro “descanso”, no qual se apresenta uma cena de conflito e incompreensão entre professores e alunos de uma escola “tradicional”. A ideia que fica é que a escola tradicional é incapaz de resolver aqueles problemas, e que eles seriam facilmente “resolvíveis” no “modelo novo” proposto pelo filme.

Que pensar desse filme? E desse “método novo”? Continuaremos na próxima semana.

 

Armando Alexandre dos Santos é licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História

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