Sexo: de mistério a banalidades

Cecílio Elias Netto

 

Temos sido injustos os que criticamos a ministra Damares, aquel´outro da Educação – cujo nome não sei escrever – e, até mesmo e agora, a Regina Duarte. Eles não têm culpa de nada. São o que são. E como são. Não passam de escolhidos. Logo, se fazem – ou vierem a fazer – tolices em seus altos cargos, a responsabilidade é de quem os escolheu. A deles, os escolhidos, é a de não se darem conta – por tolice, vaidade ou irresponsabilidade – de sua incapacidade diante da função.

Seja o que for, todavia, a amarga realidade é estarmos vivendo um cipoal de incertezas, desacertos e inseguranças. Em todos os níveis da vida. A simbologia da encruzilhada – a de um lugar de decisão, de escolher para onde ir – passou a ter-nos o significado do desespero, como se nenhum caminho nos levasse a lugar algum: nem para frente, nem para trás, nem para este ou para aquele lado.

A sexualidade humana é o que temos de mais valioso, a nossa essência. Ora, se a vida humana é sagrada, está no sexo a fonte dessa sacralidade. Em todos os tempos, o sexo tem sido esse mistério ora empolgante, ora assustador, prazeroso e doloroso ao mesmo tempo – mas sempre totalizante. É mistério tão profundo e inquietante que, apesar de todos os milênios da existência humana, continua a produzir questionamentos, indagações, inquietações.

A senhora Damares propôs, à adolescência brasileira, a forma mais cômoda – ainda que inútil – para a assustadora ascensão de gravidezes precoces: a abstinência sexual. Simples assim. E, também, tolo assim. Ora, como se detém ou se previne um tsunami? Como controlar vulcões em erupção? Adolescentes, jovens são vulcões hormonais em permanente erupção. Neles, a natureza humana explode com a maravilha e o terror do mistério da sexualidade. Impedir essa turbulência formidável, esse incêndio luminoso e destruidor? Negar, ao jovem, essa iniciação à vida como ela é? Ou ajudá-lo a entender, dar-lhe a mão para equilibrá-lo no titubeante início de caminhada?

Ora, até algumas décadas, vivíamos numa sociedade ocidental enlouquecidamente erotizante. Desde alguns anos mais recentes, passamos a estar num universo horrorosamente pornográfico. O que era apenas insinuado – muitas vezes, deliciosamente insinuado – tornou-se revelado por inteiro, feiamente revelado. O mistério deixou de existir, banalizando-se no ramerrão de feiuras, de laxismo, de liberalidade descompromissada.

Há uns 15 anos, tentei conversar com um netinho – então na puberdade – sobre a vida, namoro.  Ele me interrompeu: “Vô, se você quiser falar de sexo, esqueça. Eu já sei tudo.” Cumprimentei-o: “Parabéns, querido. Você sabe tudo sobre a vida sexual e seu avô ainda está apenas aprendendo…”

O cristianismo, em seus mais de dois mil anos de existência, tem sido fragorosamente derrotado em sua insistência para controlar a vida sexual dos povos. E não adianta disfarçar: todo poder dogmático é um poder tirânico, mesmo que prometendo o paraíso. Um Estado que pretenda “entrar no quarto” de seu povo é um estado dogmático. E, portanto, tirânico.

Então, o que fazer? Sei lá eu… Fui tolo em abordar esse assunto. Mas é impossível ignorá-lo. Deveríamos, acho eu,  refletir mais seriamente sobre a chamada economia de  livre mercado, sem regra alguma. Mercado livre é bagunça. E sexo tornou-se um dos principais produtos dessa Babel. Mercado sem regras, sexo sem regras. Reclamar, então, do quê?

Pais deveriam orientar os filhos. Mas… Quem os orientou antes? Lembram-se: “Faça o amor, não faça a guerra…”? Eis o resultado.

 

Cecílio Elias Netto, escritor, jornalista, decano da imprensa piracicabana ([email protected]

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