O céu, afinal…

Camilo Irineu Quartarollo

 

Não houve talheres na santa ceia, o pão que Judas recebeu veio molhadinho para entuchar na goela, de uma mão amiga à boca traidora.

Os convidados foram chegando, o porteiro sorridente franqueou a entrada. Lugar agradabilíssimo, um lago enorme e azul, uma casa avarandada e rosada, lustres magníficos lembravam a riqueza presente, os criados vendiam saúde e presteza. Entrem, entrem. Foram chegando felizes à moradia eterna. Dentro, uma mesa posta com toalha finamente bordada por anjos, baixelas de prata, o silêncio e o respiro de Deus, tudo ali era divino. O céu, pois não! Não, leitores e leitoras, na entrada um letreiro luminoso designava: inferno.

Eram tantas maravilhas que ninguém se cumprimentou até sentarem para o primeiro jantar. Era um jantar único. Todos estavam ali no Juízo Final e nem sinal do Altíssimo para a ironia dos ateus que ali eram um ou dois de uma multidão de pessoas de bem, padres, pastores, políticos, benfeitores e até o papa, que quis saber: onde está o mestre? “Cheguei aqui porque mereço, logo serei santo dos altares” Essa manifestação logo foi seguida por outras, umas mais contidas e outras mais ostensivas quanto à inocência e méritos dos presentes e à ausência divina para recebê-los em Pessoa.

Então uma voz se fez ouvir dizendo “primeiro o banquete será servido”. Vieram os serviçais em uniforme de gala e foram servindo em grandes pratos porções generosas, quando alguém se deu por conta de que… os talheres? Não os havia. Ora talheres, meu Deus!? Comer como? O papa que fora a esse quinto dos infernos reclamou que costumava comer sozinho e não em meio a tanta balbúrdia de insanos, onde nem rezar se podia, aquilo parecia o inferno, asseverou. Novamente a voz anunciou que os talheres viriam depois, que apenas observassem e se entendessem entre si, se conhecessem, partilhassem. Como? Pessoas tão estranhas! Um papa ao lado de um espírita, um político ao lado de uma freira, um rico ao lado de um pedinte, uma mulher honesta ao lado de quengas – somente agora percebidos estas figuras, tendo em vista que havia outra portaria perrengue com tinta descascando, donde se esgueiravam de uma fila de gente pobre, mancos, caolhos, quengas, mendigos, os quais que se escoravam uns nos outros, parecia uma fila do INSS ou do SUS, que mal paravam de pé de cansados.

Realmente a voz do anjo constrangia, daí ninguém se falou à mesa, mas olharam-se e reprovavam-se. A fome aumentava e começaram os murmúrios. Até o Altíssimo entrou no rol dos nomes feios por julgarem-no ausente. Cadê os talheres? Gritavam. Alguém afoito pegou um dos pratos e lançou pela janela que voltou com efeito bumerangue: um anjo copeiro disse: aqui é assim, tudo volta pra você. O espírita que não acreditava no inferno católico se conteve crendo numa passagem de umbral e aguardava a emanação de alguma alma boa de outra dimensão.

Por fim, vieram os talheres. Eram de rica prata adornados com pedras preciosas, de se comer com os olhos, mas tinham um metro e quinze centímetros cada um e a voz disse: comam! O papa exigiu seus antigos talheres do Vaticano. O pedinte foi comendo com as mãos e se lambuzando. As quengas olhavam à senhora honesta que nem tocou no prato. O pastor elevava as mãos ao céu esperando o milagre dos talheres benzidos. Ainda não se davam conta de que ali era o inferno. A freira se aliou ao pastor por um milagre, dois pedindo… mas o papa a advertiu de excomunhão e a mulher honesta também reprovava tal traição à fé.

Por fim, decidiram a tomar os talheres grandes mesmos e tentar comer do prato, mas o pastor acertou o garfo na túnica branca do papa que revidou com um chega pra lá, então tacou a sua colher de muitos quilates na cabeça do espírita, as quengas afoitas por comer levantaram a saia da mulher honesta com a faca e o pedinte se lambuzava debaixo da mesa. Quando o Altíssimo chegou não pôde entrar, pois havia comida pelo recinto todo, cacos de pratos, sangue, gritos e o pedinte lambuzado que se encolhia sobre a toalha. Então disse ao pedinte “filho, vamos para o céu”, ao que o pedinte exclamou “aqui não é o céu?!”

Chegando ao céu o pedinte viu o mesmo cenário, tinha a impressão de que voltara ao mesmo lugar, estava com medo, lembrava-se do ocorrido anteriormente na mesma sala. Não, desta vez, quis entrar devagar. Começou a cumprimentar as pessoas. Eram as mesmas! Vai dar ruim, pensou. Assentaram-se todos como da outra vez e no letreiro luminoso da frente em letras garrafais: inferno. Oh, não. A voz lhe disse “ocupe-se do mais importante”. Então, ao olhar de novo, não via mais as pessoas de antes, nem ele se dava à gula, mas o papa, o pastor, a freira, a senhora honesta, as quengas lhe sorriam – logo alguém pegou o talher. Qual talher? Era o mesmo de antes, de um metro e quinze centímetros, enormes. Alguém da ponta o reconheceu e lhe deu um bocado generoso de feijão e arroz com carne moída, deliciosos. Então outros começaram a fazer o mesmo. O pastor que por ojeriza se sentara na outra ponta ao papa pegou o talher e lhe entuchou umas alfaces na boca do santo padre, que sorriu brincando com um “vai sujar minha túnica”, mas comeu. A senhora honesta que se apartara das quengas aceitou um naco de carne que as famélicas meninas lhe enlamearam de gordura a boca bendita, Deus lhes pague. Assim, superado este entrevero, a voz disse “mudem o letreiro de entrada para céu”.

 

Camilo Irineu Quartarollo, Escrevente Judiciário, escritor, diagramador, capista, ilustrador, editor e autor do A ressurreição de Abayomi, entre outros

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