O que é que eu tenho com isso?

José Renato Nalini

 

2014 foi um ano em que São Paulo enfrentou grave crise hídrica. Previsível, evitável, mas significou o ápice de uma série de equívocos e de negligência acumulada.

Os jesuítas escolheram o Planalto para estabelecer sua escola, porque ele era servido por três grandes rios – Tietê, Tamanduateí e Pinheiros – e mais algumas centenas de cursos d’água que zelavam pela abundante oferta desse líquido vital.

Ninguém imaginava que São Paulo viesse a se conurbar e a absorver vinte milhões de almas, numa insensatez inadministrável. Nem que o ser humano viesse a acabar com os córregos, sepultando-os para dar lugar a leitos carroçáveis, hoje ocupados pelo mais egoísta dos veículos: o automóvel.

Menos ainda, se acreditaria que os três grandes rios se convertessem num espetáculo dantesco de uma pasta venenosa e repleta de testemunhos da ignorância da espécie racional. São coletores de lixo inapropriados, transportam morte e imundície. Não têm mais vida.

Excesso de população e de sujeira e carência de água pura, a receita ideal para o cenário de tragédia.

Superada a crise de 2014, cinco anos depois, o Sistema Cantareira opera com metade de sua capacidade. Nível considerado preocupante. É o quarto nível mais baixo para o período, nos últimos dez anos.

Não houve plena recuperação do drama de 2014. Se tudo corresse bem, ainda seriam necessários mais cinco anos para chegar a um ponto razoável, menos que sofrível.

O Cantareira é formado pelos rios Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Juqueri e abastece 8,1 milhões de pessoas das zonas norte, central, parte da leste e oeste da capital. Também abastece Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Osasco, Carapicuiba e São Caetano do Sul e parte de Guarulhos, Barueri, Taboão da Serra e Santo André.

Dá para calcular a gravidade do drama?

Não se espere que o governo procure corrigir o que seguidas administrações deixaram de fazer. O importante é que todas as pessoas se conscientizem de sua responsabilidade. O Estado precisa ser fiscalizado e cobrado para que atue no sentido de evitar construções próximas a encostas e nascentes. Tem de intensificar uma política de replantio do verde destruído. O projeto “nascentes” não é uma programação retórica, senão uma política pública de extrema relevância. A coleta de esgoto precisa ser expandida e alvo de manutenção permanente.

Já a população, a ficção chamada “sociedade civil”, tem de ter consciência cidadã para o cumprimento estrito de seu dever. Evitar o desperdício, desde o banho que não pode ultrapassar o necessário, a utilização módica ou até a supressão do uso de mangueiras, denunciar o mau uso e o abuso.

Mas é preciso incentivar o reuso, algo que é tão comum em todos os países desenvolvidos e, principalmente, aprimorar a educação ambiental. Uma população que produz tanto resíduo, que descarta material útil, que desperdiça, que não sabe o que é sustentabilidade, precisa, urgentemente, de mais educação.

São Paulo foi provida pela natureza – ou pela Providência, como preferirem – de um patrimônio natural valiosíssimo. Conseguiu coloca-lo em risco. Ainda é tempo de corrigir os rumos e de assumir a sua condição de cidade habitada por seres racionais.

 

José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove, presidente da Academia Paulista de Letras (APL) – 2019-2020

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