Por uma gota

Camilo Irineu Quartarollo

 

Costumeiros são os grilos ocultos da noite, encantados nas habitações humanas. Após o último grilo que não é da nossa conta, noite adentro, a gota é um distúrbio impertinente. Uma gota tilintando na madrugada, mesmo absorta, aos poucos substitui os grilos o som tubular de uma gota difusa. De repente, da cama quente. É ela! Após a meia noite do esgotamento cotidiano, a última gota, que não se vê, que esgota à preocupação, que definha o tempo único de uma gota em questão que aflige o sono de adão.

Dizem que é uma gota somente, mas porque não para não. A última gota provê muitas outras gotas então. Finge-se que é uma gota, somente aquela que se repete, a mesma da caixa, do ladrão, ora, é só o ladrão. Fluidez incontrolável do pequeno oceano que guardamos no nosso inconsciente e que dormentes nos perdemos por um fio, no acaso.

É só uma gota, que incomoda insistente, demente, repetitiva, invisível o presente. Embora fraca, débil, sutil, cadente, uma gota jamais retrocede por si mesma. Antes não havia gota, não se ouvia gota, não se via gota, agora que a madrugada veio, que o mundo se calou, que o último grilo parou, que o silêncio chega, é ela a batucar em alguma superfície. Quantas gotas mais? É a gota que bate, mas não é de mesmice, tira a cortina da frente da rotina. Quem, se não eu, pode detê-la, mas o sono me invade no esgotamento, meio sonho de descontentamento, me levanto sem corpo e faço como espírito o que me engana insuficiente.

Mas é a mesma gota de uma nota só. Foi essa gota que… ora quem tem o poder de deter uma gota. Se o fizer, o silêncio do ante dia será fatal, deixe fluir a gota, quem disse que me pertence conter. É só uma gota de vigia.

Igual aos mortos, mas está viva, ricocheteando em seus estampidos, antes confusa no barulho e que não percebemos nas saliências. Como a voz dos nossos entes queridos que não se foram e que se vão a cada momento com a gente, de repente, sem querer ou controlar, ao som de uma gota da madrugada. É melhor rezar, homenagear o tempo e a gota que não voltará.

O grilo se calou no eterno canto das noites e o galo está acocorado no primeiro canto.

 

 

Camilo Irineu Quartarollo, Escrevente Judiciário, diagramador, capista, ilustrador, editor e autor do livro A ressurreição de Abayomi, entre outros

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