E quando acabar o alfabeto?

José Renato Nalini

 

A criatividade dos especialistas em análise sociológica introduziu novas denominações às gerações recentes. Fala-se em “Geração X”, aquela que abriga os filhos da revolução e que nasceram entre 1965 e 1977. Foram os que viram profundas mutações nas relações familiares. As mães tiveram de trabalhar e acabou-se a era dos Baby Boomers – 1946-1964. Intensificou-se o consumismo. Foi a era do videocassete, do walkman, do computador e de muita droga.

Em seguida, a “Geração Y”, criada pela Geração X. Nasceram entre 1965 e 1977. Foram os bandeirantes digitais, focados em experiências de vida, curtem a utopia e o idealismo. Tiveram a sensação de que o mundo progredia, diante do sucesso econômico.

A “Geração Millenial”, fruto da Geração Y, é a dos nascidos entre 1978 e 1996. Já enfrentaram o recesso econômico. Tiveram de ser mais pragmáticos. O sucesso é guardar dinheiro. São nativos digitais.

Consideram-se da “Geração Z” os que nasceram entre 1997 e 2010. Praticamente 98% têm smartphones e permanecem dez horas online.

O pragmatismo seria uma característica dessa geração, pois teria o pé no chão e vontade de enfrentar trabalho duro. 72% preferem conversar pessoalmente sobre trabalho, 77% acreditam que precisam trabalhar mais duro do que as gerações anteriores, 75% buscam assumir múltiplas funções dentro de uma empresa e não têm receio de procurar outras atividades.

A grande maioria – 70% – assiste mais de duas horas de vídeos no youtube a cada dia e 80% se estressam quando longe de seus aparelhos eletrônicos. São aqueles que têm a “síndrome da abstinência”. Praticamente metade deles se confessa dependente do smartphone.

Quase 70% se animam com o trabalho remoto, o “home office” ou o teletrabalho. Enfim, é gente muito diferente das antigas gerações. Não se interessam por jornal físico, nem pela TV aberta. Estão abertos às profundas mutações da Quarta Revolução Industrial, não se assustam com a Inteligência Artificial, com a robótica, com a nanotecnologia, aceitam as alterações neurobiológicas que vão construir um novo ser humano.

Há quem se assuste, falando em pós-humanismo, trans-humanismo, fuga acelerada rumo ao caos. Mas quem é que consegue segurar a tempestade com a palma das mãos? Quem é que enfrenta tsunami com uma raquete de tênis?

É preciso ter presente que nesta era a única certeza é a incerteza e que o inesperado está à nossa espera.

Virão outras gerações. Mas talvez o alfabeto já não seja suficiente para denomina-las. Começaremos de novo, com o A-1, A-2, A-3, até vencer de novo a relação de nossos sinais gráficos?

 

José Renato Nalini,  Reitor da Uniregistral, docente da Pós-Graduação da Uninove, presidente da Academia Paulista de Letras (APL) -2019/20

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