Reclamar na Rede Social resolve mais do que nos órgãos públicos

Gregório José

 

Antigamente, o cidadão tinha dois caminhos quando o poder público falhava. Um era bater na porta da prefeitura o outro, reclamar no balcão de algum órgão público até alguém ouvir. Hoje existe um terceiro, muito mais rápido e, ironicamente, muito mais eficiente. Marcar um influenciador na rede social. E não é difícil entender por quê.

Tente resolver um problema pelos canais oficiais. Primeiro vem o ritual burocrático. Cadastro, CPF, número do protocolo, descrição detalhada, endereço completo, telefone, e-mail, confirmação por e-mail, confirmação do telefone e, se bobear, até o nome da professora da terceira série. Tudo isso para registrar algo simples como um buraco na rua ou um poste apagado.

Depois vem a cereja do bolo. O prazo!

“Senhor cidadão, sua solicitação será analisada dentro do prazo previsto na Lei de Acesso à Informação”.

Trinta dias. Às vezes sessenta. Com possibilidade de prorrogação.

Ora, quem está com a rua esburacada na frente de casa não quer um tratado administrativo. Quer que tapem o buraco. Quem está no escuro porque a lâmpada do poste queimou não quer um número de protocolo. Quer luz. Quem abre a torneira e não vê água saindo do cano não quer esperar o tempo da burocracia. Quer água.

Mas o curioso é o seguinte: publique um vídeo no Instagram, marque um influenciador local, e em poucas horas aparece alguém da prefeitura pedindo o endereço.

É quase mágico.

O mesmo problema que ficou semanas dormindo no sistema eletrônico ganha prioridade quando vira constrangimento público. A engrenagem que emperra no protocolo desliza quando a reclamação vira conteúdo.

Isso diz muito sobre como anda a comunicação entre governo e cidadão.

Se olharmos para a fiação da burocracia pública, veremos um emaranhado digno de poste de periferia. Sistemas que não conversam, formulários que se repetem, departamentos que empurram a responsabilidade uns para os outros. Um verdadeiro “gato” administrativo.

Já na rede social, a ligação é direta. Cidadão, exposição, pressão e resposta. Quase sempre positiva, ágil, reparadora.

Não é que os influenciadores tenham virado gestores públicos. O que eles fazem, na prática, é iluminar problemas que já deveriam estar claros para quem governa.

A ironia é brutal. O serviço público deveria funcionar com a clareza de uma rede elétrica organizada, mas quem acaba acendendo a luz é o celular de alguém com seguidores.

Isso não é modernização da democracia. É um sintoma.

Quando o cidadão prefere reclamar para um perfil de rede social do que para o canal oficial do governo, não é porque virou moda. É porque aprendeu, na prática, que ali a chance de resposta é maior.

E nenhum país deveria se acostumar com isso.

Influenciadores podem ajudar a resolver problemas pontuais. Mas não podem, nem deveriam substituir o funcionamento básico do Estado.

Porque, no fim das contas, governar não é responder a posts virais.

É tapar buracos antes que alguém precise filmá-los.

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Gregório José, jornalista, radialista e filósofo

 

 

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