Armando Alexandre dos Santos
Já é hora de concluirmos esta longa série de artigos que focalizou um dos temas mais discutidos e importantes da História universal: a passagem do Medievo para os Tempos Modernos. À pergunta sobre no que consistiu, essencialmente, a transição da Idade Média para a Idade Moderna, podemos responder que, muito mais do que uma transformação econômica, política ou social, essa passagem foi, sobretudo, de ordem criteriológica, psicológica e moral.
No pensamento do francês Étienne Gilson (1884-1978), que analisou essa transição mais especificamente na ótica da filosofia, a grande diferença entre ambas as épocas se deu não por adição, mas por subtração. Segundo ele, a Renascença não foi, como muitos imaginam, uma Idade Média à qual se acrescentou o homem, elemento novo, elemento central no humanismo dominante a partir de certa altura do século XIV. Mas foi a Idade Média menos Deus. De fato, na entronização do homem, como centro e referencial de todas as coisas, ocorreu um imenso distanciamento da visão teocêntrica medieval. E, observa Gilson, pelo simples fato de se afastar Deus do centro do panorama, o que ocorreu é que o próprio homem perdeu sua posição no universo, porque perdeu a base ontológica e lógica da sua dignidade. (L’humanisme médiéval et la Renaissance, in: Les idées et les lettres. Paris: Vrin, 1932) Em outra obra, intitulada La Philosophie au Moyen Âge (Paris: Payot, 1976, vol. 2, p. 720-754), Gilson desenvolve a mesma linha de raciocínio.
Já antes dele se pronunciara em percuciente crítica filosófica à Renascença um grande filósofo espanhol do século XIX, infelizmente bastante esquecido na atualidade. Refiro-me ao Cardeal Zeferino González y Díaz Tuñón (1831-1894), Arcebispo de Sevilha, autor de uma obra monumental, a meu ver indispensável para se entender bem o assunto. Veja-se sua Histoire de la Philosophie (Paris: P. Lethielleux Libraire-Éditeur, 1891, vol. III, p. 1-6), também publicada em idioma castelhano. Ambas as versões são de domínio público e podem sem dificuldade ser encontradas, em PDF, na internet.
Uma análise descritiva ampla, da transição do Medievo para os Tempos Modernos, abordando aspectos que hoje em dia se chamaria de história de mentalidades, foi a que fez o professor brasileiro Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995). Segundo ele, no século XV se acentuou uma profunda transformação de mentalidades que já tivera início no século anterior. Nessa transformação teve grande papel o apetite dos prazeres, que cresceu a ponto de se transformar em ânsia insaciável. A cavalaria, outrora alta expressão da austeridade e do espírito de sacrifício medievais, transformou-se em amorosa e sentimental. E, em meio aos excessos de um luxo que invadia as camadas mais elevadas da sociedade, foi-se criando uma mentalidade nova, interesseira, calculista, mercantilista, a qual constituiria o caldo de cultura no qual estava sendo gestado o mundo novo que fazia entrada no panorama da História. (Revolução e Contra-Revolução, Campos: Boa Imprensa, 1959, p. 18-20) Em “Curial e Guelfa” – novela de cavalaria catalã do século XV, que analisei detidamente na minha tese de doutorado – têm-se um retrato muito vivo dessa transformação de mentalidades. Dir-se-ia que a vida, nos meios da nobreza descritos na novela, passava ao largo das crises e se resumia a combates e a festas, sendo que a própria noção de combate tinha muito de lúdico, de cenográfico e, portanto, de festivo. As velhas noções medievais de seriedade e austeridade foram sendo cada vez mais esquecidas, relegadas a segundo ou terceiro plano.
Destaco esses autores, no último artigo desta série, porque seus escritos são muito adequados para a compreensão da verdadeira natureza, da imensa importância e das trágicas consequências dessa transição. Gilson e o Cardeal González a vêem como como passagem do teocentrismo medieval para o humanismo renascentista. Na ótica de ambos, a colocação do homem como centro representou uma negação de Deus e foi causa de tudo o que veio depois. Esse o grande “pecado original” dos tempos modernos. Já Corrêa de Oliveira mostra a passagem da austeridade e do equilíbrio medievais atingidos por uma mentalidade nova, com uma “explosão de orgulho e sensualidade” (op. cit., p. 12), dando início a uma imensa transformação no interior das pessoas, que desencadearia o processo revolucionário, iniciado com a decadência da Idade Média e, depois de percorrer diversas etapas – Reforma protestante, Revolução Francesa e Comunismo -, chega ao clímax nos tempos atuais.
São autores que merecem ser lidos e devidamente considerados. Sobretudo em nossos tempos de tanta confusão criteriológica…
(*) Licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Portuguesa da História e dos Institutos Históricos e Geográficos do Brasil, de São Paulo e de Piracicaba.