O futuro não pode excluir as mulheres

 

Gregório José

 

Na última semana, véspera Dia Internacional da Mulher, aparece um número que deveria causar constrangimento coletivo em Minas Gerais. Não é um detalhe estatístico. É um retrato do atraso. Um levantamento da FIEMG mostra que as mulheres ocupam apenas 0,4% das chamadas profissões do futuro no estado. Inteligência artificial, Big Data, desenvolvimento de software. Do outro lado da mesa, os homens aparecem com 1,5%. Não é muito, mas é quase quatro vezes mais.

O dado não é apenas uma desigualdade. É um sinal de que estamos construindo o futuro com metade da população praticamente do lado de fora da porta.

Enquanto o mundo discute transformação digital, automação e inovação, boa parte das mulheres ainda está concentrada nas ocupações mais vulneráveis às mesmas mudanças tecnológicas que prometem redesenhar o mercado de trabalho. Em Minas, 16,6% das mulheres do mercado formal estão em funções com alto risco de desaparecer ou encolher até o fim da década. Atendentes de serviços postais, caixas bancários, operadores de caixa. Entre os homens esse índice é de 5,6%.

Traduzindo em bom português. O futuro chega primeiro para tirar empregos femininos e chega bem mais devagar para abrir novas portas para elas.

Não é coincidência. É estrutura. Durante décadas meninas foram afastadas, de forma sutil ou explícita, das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. A famosa sigla STEM virou território masculino ainda na escola. Depois o mercado apenas reproduz o que foi plantado lá atrás.

Quando um estudo como esse aparece, ele não revela apenas números. Ele mostra uma lógica de exclusão que continua funcionando sem fazer barulho. O problema não é falta de talento. É falta de acesso, incentivo e oportunidade.

Minas Gerais, assim como o Brasil inteiro, precisa de mais gente preparada para o mundo digital que já está batendo à porta. Ignorar o potencial das mulheres nesse processo é simplesmente desperdiçar inteligência, criatividade e capacidade produtiva.

Não se trata de favor nem de bandeira ideológica. Trata-se de economia, competitividade e futuro.

Se quisermos um mercado de trabalho moderno, inovador e forte, metade da população não pode continuar presa às funções que o próprio avanço tecnológico ameaça eliminar.

O futuro não pode ser masculino por falta de coragem no presente.

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Gregório José, jornalista, radialista e filósofo

 

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