Gregório José
A pesquisa recente da Gallup revela uma transformação profunda no panorama espiritual dos Estados Unidos. Mais do que números, os dados indicam uma mudança cultural e moral que vem alterando a relação dos americanos com a fé, a transcendência e a própria ideia de algo maior que o indivíduo.
O levantamento mostra que o número de pessoas sem religião atingiu um recorde histórico em 2025. Atualmente, cerca de 24% dos americanos afirmam não possuir qualquer filiação religiosa. Em 1948, quando a medição começou, esse grupo representava apenas 2% da população. Ao mesmo tempo, a frequência aos cultos religiosos também caiu significativamente. Hoje, 57% dos americanos dizem que raramente ou nunca frequentam igrejas; apenas 31% afirmam participar semanalmente ou quase semanalmente.
Esses números revelam mais do que um afastamento institucional das igrejas. Eles apontam para um fenômeno mais profundo, um enfraquecimento da percepção de transcendência. Durante grande parte da história dos Estados Unidos, a fé desempenhou papel central na construção da identidade nacional. A crença em Deus, em um propósito superior e em uma ordem moral acima da vontade humana influenciou valores sociais, comunitários e familiares.
A nova realidade mostra um país em transformação. Entre os jovens adultos, especialmente aqueles com menos de 30 anos, o distanciamento religioso é ainda mais evidente. Cerca de 35% dizem não ter qualquer religião. Esse grupo etário também apresenta os menores níveis de participação em cultos religiosos. Apenas um quarto afirma frequentar igrejas semanalmente.
A mudança tem forte componente geracional. À medida que as gerações mais antigas, historicamente mais religiosas, são substituídas por gerações mais jovens e mais seculares, o peso da religião na vida pública e privada tende a diminuir. Trata-se de um processo gradual, porém consistente ao longo das últimas duas décadas.
Esse fenômeno levanta reflexões importantes. A religião, independentemente da tradição, sempre exerceu papel estruturante nas sociedades humanas. Ela ajudou a criar vínculos comunitários, oferecer sentido à existência e estabelecer parâmetros morais que ultrapassam interesses individuais imediatos. Quando esse referencial perde força, abre-se espaço para novas formas de identidade e pertencimento, mas também para um cenário de maior individualismo e fragmentação social.
A sociedade americana não se tornou necessariamente irreligiosa. Milhões de pessoas ainda consideram a fé elemento central de suas vidas. Protestantes, católicos, comunidades religiosas negras e populações do sul do país continuam mantendo forte vínculo com a espiritualidade. Mesmo assim, a tendência de longo prazo aponta para um declínio constante da prática religiosa organizada.
O que emerge desse cenário é uma sociedade que busca novas formas de significados. Muitos americanos continuam procurando respostas espirituais, mas fora das instituições tradicionais. A fé institucional perde espaço; a espiritualidade individual ganha terreno.
Resta saber quais serão as consequências culturais e sociais dessa mudança nas próximas décadas. Quando uma sociedade se distancia da ideia de algo maior que o indivíduo, ela também passa a redefinir seus valores, suas prioridades e sua compreensão do próprio sentido da vida.
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Gregório José, jornalista, radialista e filósofo