Camilo Irineu Quartarollo
Em Piracicaba, conforme os anais historiográficos, tivemos um policial mandão e corrupto, o Lazinho. O guarda da esquina tinha mais poder que o prefeito ou juiz. Quando não há respeito à lei e ao Judiciário, qualquer valentão pode se arvorar em defensor da lei e da ordem. O AI-5 do golpe fez isso com a gente.
Nem fazíamos ideia de que era proibida a Reunião de pessoas no nosso timinho de rua, nas esquinas, nas vielas, nas igrejas caladas, nas escolas sob censura, na uniformização, numa sociedade de ombros frouxos.
Nas edições de março de 2014, o jornal A Província publicou “Anos de chumbo”: tortura em Piracicaba – Pau de arara, choques elétricos, ameaças de morte, extorsões. Pontua que em 1972, chegou à cidade um investigador conhecido e mal afamado, o Lazinho. Corrobora esse artigo vasto com depoimentos das vítimas, nomes e endereços de pessoas talvez vizinhas de parede e meia nossos, no bairro Alto, Centro, Jardim Brasil. Essas eram retiradas do seu convívio e levadas a uma sala com seres das trevas, para interrogatórios no nível da Gestapo. Silêncio, se denunciassem… Você não viu, mas seu vizinho viu.
Os piracicabanos, inocentes e comportados, achavam-se protegidos, só que não. Cadê seu pai? Até ele foi preso. Alguma coisa fez, justificavam os vizinhos, até que algum familiar também virava vítima da polícia. Até famílias ricas sofreram tentativa de extorsão, mediante sequestro dos filhos.
O que é a Democracia?!
É o contrário da ditadura. Os frutos malignos da ditadura são os lazinhos. Esse criou um governo seu na cidade – com suas particularidades. Num esquema de tráfico de drogas e extorsões, através das meretrizes, no bairro Jardim Brasil. Obrigava as pobres do sexo a comercializarem drogas com os frequentadores e viciados. Ali o tal também forjava flagrantes e extorquia os clientes.
Ele ditava a “sua” lei, impunha pela violência, inquestionável. Mandava mais que juiz, advogado e prefeito, e todos quietos – não havia habeas corpus às vítimas ou meio de afastar o policial das ruas ou casas. Exibia-se na frente da redação de O Diário, num Jeep, portando um fuzil cercado de mulheres, como quem sabia estar protegido pela impunidade e não ser jamais denunciado.
Muitos também resistiram e fizeram a História, construíram a democracia contra a ditadura do Lazinho. O fizeram pela luta por direitos. Difamados como guerrilheiros esses jovens, os quais não portavam sequer um canivete de picar fumo. Traziam a bandeira da liberdade através dos direitos devidos a todos os seres humanos e ao meio ambiente.
É preciso renovar a esperança desses jovens, e rejuvenescer contra a ditadura e promessas de candidatos do bolsonarismo em curso. O candidato quer cortar todos os benefícios atuais, ele acha muito caro. Caro é o voto nele! Vai pôr fim aos programas sociais, cortar o bolsa família, reduzir os nossos salários, aumentar a jornada para até doze horas, aumentar a idade de aposentadoria, privatizar o SUS, postos de saúde, universidades. E abra os olhos, não lhe ajudarão, pois gastos sociais, dizem, onera o país deles, pois se fosse nosso… mas é você que vota, né.
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Camilo Irineu Quartarollo, escrevente e escritor, ensaísta, autor de crônicas, historietas, artigos e livros, como Contos inacreditáveis da vida Adulta