Maria Pía
As contadoras e contadores de histórias muitas vezes recebemos perguntas como: como começo a contar? O que precisa para ser contador ou contadora de histórias? E a minha resposta quase sempre é contar um pouco do meu próprio caminho dentro dessa arte. Porque cada contador e cada contadora tem sua própria história de como chegou até a contação. Raramente é um sonho de infância, a contação costuma aparecer na vida da gente. E foi assim comigo também.
Antes de tudo, eu me apresento: sou a Pía, sim, Pía com P, como a pia do banheiro. Tenho esse sotaque porque não sou daqui, sou argentina. Mas puxo o R com gosto e orgulho, porque escolhi ser também caipira e piracicabana. Cresci em Buenos Aires, uma cidade grande, cheia de cultura. Fui criança nos anos 80, naquele momento bonito da volta da democracia, quando as artes e o trabalho coletivo estavam muito vivos.
Tive (e ainda tenho) uma mãe muito preocupada com a minha vida cultural. Então era assim: quase todo domingo tinha teatro ou cinema, muito parque e muito teatro de rua. E, no meio de tudo isso, às vezes apareciam contadores e contadoras de histórias. Também sou filha da escola pública, onde muitas vezes vinham contadoras (quase sempre mulheres) para contar histórias em eventos. E eu, que já sabia que o teatro era o que queria para minha vida, ficava encantada vendo aquelas pessoas sozinhas criando mundos inteiros só com o corpo e com a palavra.
Depois a vida vai acontecendo… ser atriz, dirigir, dar aula, estudar… tudo isso vai preparando o terreno para a narração. Eu fui e voltei algumas vezes entre Argentina e Brasil. E numa dessas voltas à Argentina apareceu a oportunidade de fazer um curso de contação de histórias. Lembram que eu disse que a contação aparece na vida da gente? Pois é, foi exatamente isso. Nesse curso tive uma professora maravilhosa que me disse duas coisas que nunca esqueci: o primeiro trabalho de um contador é escolher bem a história, e a segunda: nunca conte uma história na qual você não acredita.
Nesse mesmo ano comecei a trabalhar na Biblioteca Pública, no setor infantil, e passei oito anos mergulhada em livros infantis, completamente empanturrada de histórias. Foi também aí que comecei a encontrar meu próprio caminho: contar com o livro. Que não é exatamente a mesma coisa que mediação de leitura, que também adoro fazer, mas essa é uma conversa para outro texto. Desde então, uma das minhas marcas como contadora é essa: o livro me acompanha.
Depois voltamos em família para o Brasil. Piracicaba nos acolheu, e aqui descobri duas coisas muito bonitas: que posso contar histórias com sotaque e que contar para crianças pequenas, aquelas bem pequenas mesmo, essas que muita gente acha que não entende, mas entende tudo, é um dos espaços onde sou mais feliz. Foi aqui também que entendi melhor quem sou contando: conto histórias como atriz, e o humor é o lugar onde me sinto mais em casa.
E para vocês que querem contar histórias, deixo dois conselhos amorosos: leiam muito, procurem e encontrem histórias que mexam com vocês. Depois conte para quem estiver perto, para a família, para amigos e amigas. E então criem coragem e contem para um público. Contem uma vez, contem dez, contem cem, contem mil. E não tenham medo de pensar fora da caixinha: inventem caminhos, criem suas formas, inventem histórias. Olhem nos olhos de quem escuta… e, principalmente, sejam felizes contando.
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Maria Pía, conhecida no cenário artístico como Pía, é atriz, professora e diretora de teatro, além de contadora de histórias argentina. Conta histórias em espanhol, português e, algumas vezes, em portunhol. O uso do livro é parte importante de suas narrações. É integrante do coletivo Contaê.