O Renascimento em tela de juízo

 

Armando Alexandre dos Santos

 

O Renascimento, tal como de fato ocorreu – ou seja, rompendo antiteticamente e quase dialeticamente com o passado medieval próximo e procurando “ressuscitar” uma Antiguidade clássica que, na verdade, nunca tinha morrido inteiramente, mas se conservara na cultura ocidental, preservada nas bibliotecas dos mosteiros, nos escritos dos grandes pensadores e filósofos, nas instituições universitárias – terá realmente representado um fator benéfico para a História da Humanidade?

Após o período trágico de meados do século XIV até meados do século XV (marcado pela Peste Negra, pela Guerra dos Cem Anos, pela queda do Império Romano do Oriente, pelo recrudescer do perigo maometano), não teria sido mais vantajoso um retorno aos padrões que haviam presidido ao progresso cultural, científico e artístico verificado no século XIII, que foi precisamente o século da consolidação das grandes universidades europeias? Nesse caso, o desabrochar extraordinário de potencialidades e virtualidades demonstrado pela Velha Europa durante o Ciclo das Navegações, nos séculos XV e XVI, não poderia ter-se inserido na linha da continuidade e não da ruptura com o Medievo?

Se em lugar da ruptura com a visão teocêntrica medieval tivesse havido um progresso e uma abertura ainda maiores da mesma visão humanístico-cristã, não poderia ter ocorrido um Renascimento completamente diferente daquele que ocorreu? Não poderia ter-se produzido, nos séculos XIV e XV, um renascimento similar ao renascimento carolíngio, ocorrido na passagem do século VIII para o IX? Ou similar ao renascimento escolástico, dos fins do século XII até o fim do XIII?

Tanto nas escolas carolíngias dirigidas por Santo Alcuíno de York (c. 740-804) como nas universidades do século XIII, os clássicos greco-romanos, tantos séculos conservados nos mosteiros, foram estudados e revalorizados com afinco, deles se extraindo os tesouros da sabedoria dos Antigos, enriquecidos pelo Cristianismo e pela longa experiência dos séculos – mas sempre num sentido de continuidade e não de ruptura.

Sem querer entrar em divagações pelo campo escorregadio e controvertido da chamada História Contrafactual, pode-se perguntar:  Se o “terceiro Renascimento” tivesse ocorrido no sentido de continuidade com os dois primeiros, não poderia ter havido um desenvolvimento tecnológico e científico extraordinário (já notado de modo claro no século XIII), assim como um aprimoramento artístico e cultural muito grande, sem que os excessos do velho paganismo recobrassem vida e adquirissem força nova? Por exemplo, sem o retorno das excessivamente rígidas, patriarcais e patrimonialísticas normas do Direito Romano que 1000 anos de Cristianismo haviam suavizado, e que retornaram com pleno vigor e no seu máximo rigor? Basta lembrar, a propósito, que foi nos séculos XV e XVI que retomou nova força a chaga da escravidão, que na Idade Média estava praticamente extinta na Cristandade europeia; que se acentuou a discriminação contra as mulheres, impedidas de frequentar universidades e praticar livremente a medicina; e se passou a justificar a usura, do que decorreria o surgimento (ou pelo menos a incrementação) do capitalismo, com todos os desvios e abusos que ele ensejou.

Todas essas indagações vão de encontro frontal com o que geralmente se ensina e aprende nos cursos secundários de todo o Ocidente. Elas remam contra a corrente e parecem chocar o senso comum. Mas são perguntas que uma análise percuciente e não preconcebida da transição Medievo-Renascimento não pode deixar de fazer. E que fazem lembrar da metáfora mitológica da caixa de Pandora. Não teriam sido soltos, naquele tempo, os micróbios e os germes que haveriam de contaminar e envenenar tudo o que atingiu a pobre Humanidade nos séculos seguintes e continuam a nos afligir no momento presente?

 

(*) Licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Portuguesa da História e dos Institutos Históricos e Geográficos do Brasil, de São Paulo e de Piracicaba.

 

 

 

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