Rafael Jacob
Quando se fala em pleno emprego no Brasil, o termo costuma soar utópico. Em uma economia continental, marcada por ciclos fiscais instáveis, desigualdades regionais profundas e limitações estruturais, imaginar desemprego residual parece distante da realidade. No entanto, a lógica muda quando a análise se desloca para a esfera municipal. E, nesse contexto, Piracicaba reúne condições concretas para tratar o pleno emprego não como utopia, mas como meta estratégica.
Pleno emprego não significa ausência absoluta de desemprego. Tecnicamente, refere-se a uma situação em que a maioria das pessoas aptas a trabalhar encontra ocupação produtiva, restando apenas o chamado desemprego residual, aquele decorrente da transição natural entre vagas. Em cidades com base industrial consolidada, ambiente universitário ativo e dinamismo logístico, esse patamar é plenamente alcançável.
Piracicaba possui parque industrial diversificado, tradição agroindustrial, setor industrial de máquinas e equipamentos estruturado, cadeia sucroenergética relevante, universidades de excelência e centros de pesquisa reconhecidos nacionalmente. Poucos municípios de porte semelhante concentram ativos econômicos tão estratégicos. O que falta, portanto, não é potencial. É alinhamento sistêmico.
Buscar o pleno emprego em âmbito municipal exige método. Significa mapear permanentemente as demandas do setor produtivo, antecipar tendências tecnológicas, identificar gargalos de qualificação profissional e construir políticas integradas entre educação, desenvolvimento econômico e inovação. Não se trata apenas de intermediar vagas, mas de estruturar um ecossistema capaz de gerar oportunidades de forma contínua.
Outro aspecto fundamental é compreender que pleno emprego não se resume à quantidade de postos formais. É necessário observar a qualidade dessas vagas, a remuneração média, a estabilidade e a capacidade de progressão profissional. Uma cidade que gera empregos de baixa qualificação, com alta rotatividade e pouca perspectiva de crescimento, pode até reduzir estatísticas de desemprego, mas não necessariamente elevar sua renda per capita ou seu padrão de desenvolvimento.
Há também uma dimensão estratégica pouco explorada no debate local: a retenção de talentos. Piracicaba forma engenheiros, técnicos, pesquisadores e profissionais qualificados todos os anos. Parte significativa desse capital humano migra para outras regiões por falta de oportunidades alinhadas ao seu perfil. Pleno emprego municipal passa, inevitavelmente, por criar ambiente propício à absorção dessa mão de obra qualificada, estimulando inovação e novas cadeias produtivas.
Em escala nacional, a política macroeconômica define limites importantes. No plano municipal, entretanto, há espaço para ação direta. Simplificação de processos, ambiente regulatório previsível, incentivo à inovação, qualificação profissional orientada por dados e articulação permanente com o setor produtivo são instrumentos sob governança local. Quando bem coordenados, produzem resultados mensuráveis.
Piracicaba não precisa aguardar soluções estruturais de Brasília para avançar. Pode assumir protagonismo regional e demonstrar que, com planejamento e integração, o pleno emprego deixa de ser proposta abstrata e se transforma em projeto concreto.
Em última análise, desenvolvimento econômico consistente é aquele que garante oportunidade a quem deseja trabalhar e empreender. Para uma cidade com o histórico produtivo e a capacidade instalada de Piracicaba, perseguir o pleno emprego não é ousadia. É consequência natural de uma gestão que compreende que emprego e renda não são estatística, mas prioridade estratégica.
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Rafael Jacob é Mestre em Engenharia pela USP e Sócio Fundador da RSafe Engenharia