Uma profunda transformação criteriológica

 

 

Armando Alexandre dos Santos

 

Tratamos, em nosso último artigo, da passagem da Idade Média para a Modernidade, passagem essa que consistiu numa ruptura muito profunda. Ocorreu uma imensa transformação criteriológica, uma profunda mudança axiológica na ordenação dos valores, que teve implicações em todos os campos da vida humana, na cultura, na política, na economia, na vida social.

Na Idade Média prevalecia o teocentrismo. Deus era o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim da História humana e era, ao mesmo tempo, o centro de tudo. Por princípio, tudo se ordenava para Deus e se relacionava com o Divino como a seu fim último – embora na prática, na ordem concreta das realizações humanas, muitas vezes esse ideal não fosse nem de longe atingido. O ideal visado para o governo dos povos era o fixado nos specula regum e nos specula principum, ou seja, o bem comum, não apenas nesta Terra, mas em ordem à felicidade eterna no Paraíso.

O bem comum de uma sociedade, tal como era entendido no Medievo, comportava dois aspectos: um menor, imanente e interno, e outro maior, transcendente e externo. São Tomás de Aquino explica essa duplicidade de aspectos com a metáfora de um navio, que somente é bem dirigido por seu comandante se consegue chegar ileso ao porto desejado; a boa conservação do navio é meio necessário para ele poder chegar ao fim, mas não basta conservá-lo: se o navio permanecer intacto, mas não chegar ao destino, o comandante não terá cumprido sua missão; assim também se dá com as sociedades (SANTO TOMÁS DE AQUINO, El Régimen Político  [De regimine Principum], 75).  O bem comum imanente e interior da sociedade comporta diversos bens necessários aos cidadãos: saúde, alimentos, conforto, cultura, virtude etc. O bem comum transcendente e externo é Deus, princípio e fim de todo bem, para o qual se deve ordenar a sociedade como o navio ao porto, já que “o fim último da sociedade não é viver virtuosamente, mas é chegar à posse e ao gozo de Deus após ter vivido virtuosamente” (idem, 79). O bom governante, ensina em outra obra o mesmo Tomás, comentando a Política de Aristóteles, é necessariamente virtuoso: “Não se é bom príncipe se não se é moralmente bom e prudente” (Com. In: III Polit., lec. 3, n. 369); e acrescenta, na Suma Teológica: “É impossível que o bem comum da nação vá bem se os cidadãos não são virtuosos, ao menos aqueles a quem compete mandar.” (I-IIae, q.92, a.1.)

Em todos os campos das atividades humanas, econômicos, culturais, artísticos, em princípio era esse o ideal que deveria prevalecer. A arte medieval não somente focalizava preferencialmente temas religiosos, mas também entendia a si própria como a expressão da Beleza, e entendia a Deus como sendo a suma Beleza, o inspirador, o parâmetro e a Causa Final de todas as artes humanas.

Com o Renascimento, o critério de valores mudou radicalmente. Deus deixou de ser o centro de tudo. É claro que não se propôs o ateísmo, propôs-se simplesmente um deslocamento do papel de Deus. O Homem ocupou seu lugar. O antropocentrismo tomou a dianteira sobre o teocentrismo. Dessa mudança, as consequências eram inevitáveis, nos mais variados campos. Na Política, por exemplo, ao modelo especular de Príncipe cristão devotado ao bem comum de seu povo, sucedeu o modelo do Príncipe de Maquiavel, cuja meta não mais era assegurar o bem comum da sociedade, mas garantir sua permanência no poder de qualquer modo, não mais sujeito a uma ordenação moral, mas manumitido dessa obrigação e tendo em vista única e exclusivamente seu próprio bem individual.

A essa mudança axiológica profunda, até mesmo a arte foi sensível. Ela deixou de ser a expressão da beleza suprema e passou a exprimir belezas humanas, proporcionadas aos limites do homem. A representação do maravilhoso e do sublime do Paraíso e de uma Terra concebida como reflexo e imitação do mundo paradisíaco até então tinha sido o objetivo dos artistas medievais. Tal objetivo cedeu o passo a outro, o da busca das perfeições clássicas, dos modelos humanos consagrados pela Antiguidade. Revalorizou-se a arte antiga, revalorizou-se, paralelamente, o Direito Romano, tendeu-se a desprezar a Idade Média e a influência da Igreja Católica.

Do ponto de vista técnico, as artes tiveram grandes progressos no Renascimento. Técnicas novas foram desenvolvidas, obras-primas foram realizadas. Mas, como acontece em toda mudança, houve também perdas notáveis. Foram desprezados e sacrificados numerosos elementos artísticos medievais, que só muito depois, já no século XIX, voltaram a ser valorizados. A estatuária medieval, que era predominantemente policromada, em muitos lugares teve as tintas raspadas, para que a estátua aparecesse monocromática, em sua pura forma, apenas para corresponder aos padrões de Antiguidade clássica – porque se imaginava, erradamente, que os gregos antigos não usassem cores na estatuária e na arquitetura.

 

 

 

 

 

(*) Licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Portuguesa da História e dos Institutos Históricos e Geográficos do Brasil, de São Paulo e de Piracicaba.

 

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