Os contrastes midiáticos

Adilson Roberto Gonçalves

 

De um lado, boas notícias envolvendo a cultura brasileira são fartamente noticiadas. De outro, certas denúncias envolvendo grupos midiáticos nacionais passam ao largo.

Assim, o mês de fevereiro começou com mais um orgulho nacional. A premiação no Grammy de Caetano Veloso e Maria Bethânia consagrou o que de melhor temos na música popular brasileira. Pelo fato de a premiação ter sido em um domingo à noite, nem todos os veículos noticiaram de forma completa aquele acontecimento no dia seguinte. Mas é bom registrar que, além disso, as manifestações contrárias à política migratória de Donald Trump deram o tom engajado na cerimônia. Plagiando os poetas, é necessária a arte, porque a vida presta, mas não basta.

Porém, quando o assunto é o material chamado de “arquivos Epstein”, a situação muda um pouco. Nos milhares de documentos liberados, é interessante pesquisar pelas menções aos grupos de mídia do Brasil. A maioria das citações é como fonte da informação, mas há também a indicação como formação de opinião. Em um dos e-mails, é mencionado que a família Marinho, de O Globo, é uma das mais poderosas do país. Seria importante os próprios grupos midiáticos fazerem uma busca para saber como foram lá tratados. Mas, mesmo com alertas de leitores, o silêncio impera até aqui.

Outra questão importante é a ampliação da exploração de petróleo havida no governo Dilma, que foi amplamente monitorada por aquele pessoal, usando o material aqui noticiado, reforçando que o envolvimento de Epstein com políticos não era apenas pelo sexo fácil. O jornalismo de dados deve estar atento ao volume farto de informações contidas nos arquivos e saber garimpar o que é útil e que pode ser transformado em reportagem. Pelo que se apreende, seriam reportagens extensas, do tipo que as revistas piauí e The New Yorker costumam fazer.

Aliás, a revista The New Yorker mostra que é possível jornalismo sério, responsável, crítico e profundo nos dias de hoje, diferente da matéria volúvel e volátil imposta pelo ritmo da internet. Ela completou 100 anos e tem sido festejada, incluindo a produção de um documentário sobre sua trajetória, disponível na Netflix. Não pesquisei se foi feito algum resumo em outras plataformas não pagas. A revista começou como humorística e evolui para assuntos sérios após a segunda guerra mundial, quando dedicou um número todo para um artigo sobre Hiroshima. Depois vieram matérias icônicas, como o “A sangue frio”, de Truman Capote, que virou livro de grande sucesso, e “Primavera silenciosa”, de Rachel Carson, primeiro trabalho de peso com repercussão mundial sobre os impactos do uso de defensivos químicos na agricultura. Ambos saíram primeiro nas páginas da The New Yorker e foram alvo de dúvidas (Capote teria fantasiado em demasia os diálogos com um dos assassinos) e processos (a indústria química da época defendia que os agroquímicos não causavam nenhum mal).

O documentário tem sido bem avaliado por jornalistas nacionais, um bom material sobre o centenário da revista que também influenciou congêneres pelo mundo afora, tendo a piauí como filha legítima brasileira.

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Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp – Rio Claro

 

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