Ari Junior
Em 1986, quando o tempo ainda não corria, apenas andava, com passos largos e alguma dignidade, os Natais demoravam eternidades para chegar. Eu começava a me alfabetizar na Escola Primária quando Chrystian & Ralf entravam em estúdio para gravar o quarto álbum de uma carreira que ainda estava se afirmando, mas já sabia exatamente aonde chegar. Não havia pressa, nem a obsessão por acerto imediato. Gravava-se como quem constrói casa: pensando no hoje, mas confiando que aquilo precisaria aguentar muitos invernos. Quarenta anos depois, o disco permanece de pé, e talvez o que mais impressione não seja o sucesso que fez, mas o quanto ele ainda entende de espera, de silêncio e de tempo, justamente três coisas que desaprendemos a respeitar. Não era apenas mais um trabalho na prateleira. Era a confirmação de que o sertanejo já não cabia só na poeira da estrada nem no chiado do AM. Havia ali uma sofisticação contida, um romantismo que não pedia desculpas, uma dor cantada com boa dicção e roupa alinhada no estilo caubói.
O álbum homônimo vendeu 500 mil cópias, rendendo disco de platina duplo, quando disco ainda era disco, loja ainda era ponto de encontro e sucesso exigia repetição, paciência e boca a boca. Nada viralizava. Tudo insistia. Mas talvez o detalhe mais bonito esteja nas entrelinhas, e aqui, faço questão de destacar, primeiro por ser fã, e depois por ser um ato ousado para 40 anos atrás: três canções desse LP são assinadas por uma mulher que também despontava, ainda sem a coroa que o tempo lhe daria. Roberta Miranda emprestou ao disco palavras que já nasciam com cheiro de eternidade: “Prece à minha mãe”, “Esperando você chegar” e “Tempo ao tempo”.
Não é pouca coisa. Roberta sempre que pode, homenageava as mães, em especial, a sua. ‘É a mão Divina que cobre com o manto, é teu protetor, Divino Espírito Santo’. Chrystian & Ralf, com sua afinação única e perfeita, deram ainda mais sacralidade a algo já tão delicado. ‘Eu ensinei que até as flores ferem com jeitinho’. A letra de ‘Esperando você chegar’ é um poema musicado, mostrando que é possível exprimir sentimentos de amor, cuidado, desejo e até certa posse numa música que se tornou obra-prima das canções sertanejas. E, claro, menção honrosa à Tempo ao tempo, que mostra alguém apaixonado, descrevendo de forma singular as características da pessoa amada, mas, que, sabe se lá se por teimosia, sufoco ou só estupidez, pede um tempo nessa relação, vê o quanto errou, e súplica ao Criador de forma tão melódica: ‘Deus, hoje eu sei que nada sou, me devolva esse amor ou me faça um homem de rocha.’ Se isso não toca sua alma, nada mais o fará.
Ouvir esse disco hoje é reencontrar um Brasil que ainda acreditava no amor como projeto de longo prazo, e na arte como uma demonstração tácita de beleza nas suas mais diversas vertentes. Um tempo em que esperar não era sinônimo de ansiedade, mas de esperança. Um tempo em que música não acompanhava a pressa, acompanhava a vida.
Quarenta anos depois, o álbum segue ali, intacto, encantando novas gerações, se firmando como um ponto inabalável do cancioneiro popular e nos trazendo certas lembranças que a gente às vezes não revisita por medo de descobrir que mudaram. Mas não mudaram. São apenas parte de um todo que se chama nós.
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Ari Junior, escritor, cronista e supervisor de compras