Ronaldo Castilho
O Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto é mais do que uma data simbólica no calendário mundial. Trata-se de um marco ético, histórico e civilizatório que impõe à humanidade o dever de lembrar. Lembrar não como um exercício nostálgico ou distante, mas como um compromisso ativo com a verdade, com a justiça e com a dignidade humana. Em tempos de discursos extremistas, negacionismo histórico e banalização do ódio, a memória se torna uma forma concreta de resistência.
O Holocausto não foi um desvio ocasional da História, tampouco um episódio isolado. Foi um projeto cuidadosamente arquitetado, sustentado por uma ideologia de ódio e executado com a frieza de uma máquina estatal. Milhões de judeus foram assassinados pelo regime nazista, assim como ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais, opositores políticos e tantos outros considerados “indesejáveis”. Recordar essas vítimas é reafirmar que nenhuma sociedade pode aceitar a desumanização como algo normal.
O lema #WeRemember carrega uma força que vai além das redes sociais. Ele simboliza um pacto coletivo: lembrar para educar, lembrar para alertar e lembrar para impedir que atrocidades semelhantes voltem a ocorrer. A memória, quando preservada e transmitida, não aprisiona o passado, ela protege o futuro.
Esse compromisso com a memória também se manifesta em ações locais, próximas, humanas. Em Piracicaba, um ato realizado no Teatro Erotides de Campos reuniu autoridades, educadores, representantes da sociedade civil e a comunidade para lembrar as vítimas do Holocausto. Não foi apenas uma cerimônia formal, mas um encontro carregado de significado, onde a História deixou os livros e se apresentou em carne, voz e emoção.
Tive a honra de ser convidado pelo organizador o jornalista Maurício Ribeiro, como um dos três jornalistas a entrevistar um sobrevivente do Holocausto, Joshua Strul. Estar diante de alguém que viveu na própria pele as atrocidades cometidas pelo regime nazista é uma experiência que transcende qualquer técnica jornalística. Não se trata apenas de fazer perguntas, mas de ouvir com respeito, sensibilidade e consciência histórica. Joshua Strul não é apenas uma fonte; é uma testemunha viva de um dos capítulos mais sombrios da humanidade.
Além da entrevista realizada durante o evento, tive a responsabilidade e o privilégio de publicar uma entrevista de página inteira com Joshua Strul no jornal A Tribuna Piracicabana. Cada palavra escrita carregava o peso da memória coletiva e o dever de transformar o testemunho individual em patrimônio público. O jornalismo, nesse contexto, cumpre sua função mais nobre: registrar, preservar e dar voz àqueles que a História tentou silenciar.
A emoção de estar ao lado de uma história viva das atrocidades nazistas é profunda e difícil de traduzir em palavras. Há um silêncio que fala, um olhar que carrega décadas de dor, resistência e sobrevivência. É impossível sair ileso de um encontro como esse. Ele nos obriga a refletir sobre até onde pode chegar o ódio quando institucionalizado e sobre a fragilidade das democracias quando a intolerância se torna discurso aceitável.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, pensadores das mais diversas áreas se dedicam a compreender o significado do Holocausto e suas implicações para o presente. A filósofa Hannah Arendt, ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, alertou para a chamada “banalidade do mal”, mostrando que crimes monstruosos podem ser cometidos por pessoas comuns quando estas renunciam ao pensamento crítico e à responsabilidade moral. O mal extremo, segundo ela, nem sempre nasce da perversidade, mas da obediência cega.
Theodor Adorno, filósofo da Escola de Frankfurt, foi categórico ao afirmar que a principal exigência da educação é que Auschwitz não se repita. Para ele, a memória do Holocausto deve servir como um alerta permanente contra o autoritarismo, o preconceito e a violência. Primo Levi, sobrevivente dos campos de concentração e um dos mais importantes escritores do pós-guerra, insistiu que lembrar é um dever, pois o esquecimento representaria uma segunda morte das vítimas.
Esses pensadores, vindos de contextos e formações diferentes, convergem em um ponto fundamental: o Holocausto não começou com as câmaras de gás, mas com palavras, discursos e atitudes. Começou quando o outro passou a ser visto como inferior, descartável, indigno de existir. Começou quando a sociedade tolerou a exclusão, o racismo e a violência simbólica.
O encontro com Joshua Strul em Piracicaba reforça uma constatação inquietante: ainda precisamos falar sobre o Holocausto. Ainda precisamos ouvir os sobreviventes enquanto eles estão entre nós. Ainda precisamos educar as novas gerações para que compreendam que a História não é algo distante ou abstrato. O crescimento de movimentos extremistas e o ressurgimento do antissemitismo mostram que a memória está constantemente ameaçada.
Nesse cenário, o papel do jornalismo se torna ainda mais relevante. Dar visibilidade às histórias, contextualizar os fatos e combater o negacionismo não é militância ideológica, mas compromisso com a verdade. Publicar uma entrevista de página inteira com um sobrevivente do Holocausto é um ato de responsabilidade social e histórica.
Neste Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, lembrar é um gesto político no sentido mais profundo da palavra: uma escolha em defesa da vida, da democracia e dos direitos humanos. Que o #WeRemember não seja apenas uma expressão simbólica, mas uma prática permanente.
Enquanto houver sobreviventes dispostos a contar, jornalistas dispostos a ouvir e leitores dispostos a refletir, a memória continuará viva. E enquanto a memória permanecer viva, haverá esperança de que a humanidade não repita seus erros mais trágicos. Nunca esquecer é uma forma de justiça.
Lembrar o Holocausto também significa reconhecer a coragem daqueles que, mesmo após terem tido sua humanidade negada, escolheram reconstruir suas vidas e compartilhar suas histórias. Sobreviventes como Joshua Strul carregam marcas profundas, físicas e emocionais, mas também carregam uma missão involuntária: a de testemunhar. Cada relato é um alerta contra a indiferença e uma denúncia permanente contra qualquer forma de intolerância.
Há uma dimensão pedagógica incontornável na memória. Escolas, universidades, meios de comunicação e instituições públicas precisam tratar o Holocausto não como um tema distante ou restrito a uma comunidade específica, mas como uma tragédia universal. Quando jovens entram em contato com essas histórias, compreendem que o ódio não nasce grande, ele cresce quando é alimentado pelo silêncio, pela omissão e pela naturalização da violência.
Por isso, o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto não deve se encerrar em cerimônias pontuais ou discursos protocolares. Ele deve provocar reflexão contínua, ações educativas e compromisso coletivo. Lembrar é um ato de humanidade. E enquanto a humanidade escolher lembrar, haverá resistência contra o esquecimento, contra o negacionismo e contra a repetição da barbárie.
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Ronaldo Castilho é Jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. É licenciado em História e Geografia, bacharel em Teologia e Ciência Política, e possui MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes.