João Ulysses Laudissi
À primeira vista, os parênteses parecem apenas um detalhe da matemática escolar, algo pequeno, quase decorativo. Mas, quando observados com mais atenção, eles revelam uma lição surpreendentemente profunda e perfeitamente aplicável à vida cotidiana.
Na matemática, os parênteses não alteram os números. Eles não mudam quem está na conta. O que eles mudam é a ordem, o sentido do que vem primeiro. E é exatamente aí que começa o ensinamento.
Veja um exemplo simples. A expressão -2² resulta em -4. Já (-2) ² resulta em +4. Os elementos são rigorosamente os mesmos. Nada foi acrescentado, nada foi retirado. Ainda assim, o resultado muda por completo. A diferença está apenas no modo como os elementos foram organizados.
Na vida acontece algo muito parecido. As pessoas são as mesmas, os fatos também, assim como as palavras. O que muda é o contexto. Uma frase solta pode soar como agressão; colocada no “parêntese certo”, vira explicação. Um gesto mal compreendido pode gerar conflito; compreendido dentro do contexto, pode revelar cuidado. Contexto muda tudo.
Os parênteses também ensinam algo ainda mais valioso: a importância da pausa. Em uma conta matemática, eles dizem silenciosamente: “pare um instante e resolva isso antes de seguir adiante”. No cotidiano, essa lógica é quase um convite à maturidade. Antes de reagir, julgar ou responder, vale abrir um pequeno parêntese interior e se perguntar: o que está por trás disso? O que veio antes? Muitas confusões nascem da pressa; muita sabedoria nasce da pausa.
Há ainda outra lição fundamental. Na matemática, a ordem das operações não é um capricho técnico, mas uma estrutura. Na vida, as prioridades funcionam como parênteses invisíveis. Quando o ego vem primeiro, o resultado costuma ser o conflito. Quando o diálogo ocupa esse lugar, o desfecho quase sempre muda. Não é o mundo que se transforma — é a ordem que escolhemos para lidar com ele.
Por fim, os parênteses também nos lembram de algo essencial: eles existem para organizar, não para esconder. Nem tudo precisa ser dito no mesmo instante, mas também nem tudo deve ser guardado para sempre. Saber quando abrir e quando fechar parênteses é sinal de equilíbrio, sensibilidade e maturidade emocional.
No fundo, a matemática nos entrega uma lição simples e poderosa: viver bem não é mudar os fatos, mas escolher, com consciência, a ordem em que lidamos com eles. E, assim como numa boa conta, quando colocamos o essencial no lugar certo, o resultado costuma fazer mais sentido.
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João Ulysses Laudissi, engenheiro e professor