Futebol – Série A2 acumula troca de treinadores

Na Série A2 do Paulista a dança das cadeiras já trocou cinco treinadores. CRÉDITO: Divulgação

O “troca-troca” de treinadores já se tornou mais intenso no Campeonato Paulista da Série A2 do que a própria disputa dentro de campo. As demissões se acumulam rodada após rodada, e a cada mudança à beira do gramado aumenta a sensação de gestões amadoras, apressadas e sem critérios claros.

As diretorias agem rapidamente ao demitir treinadores após resultados abaixo do esperado, como se a simples troca de comando fosse capaz de resolver problemas estruturais profundos. No entanto, a prática recorrente expõe uma realidade conhecida: a falta de planejamento, de profissionalismo e de responsabilidade administrativa.

Quando um treinador é contratado, ele apresenta um modelo de jogo, define necessidades táticas e indica perfis de atletas para compor o elenco. A partir disso, cabe à diretoria e ao executivo de futebol viabilizar essas contratações. O problema começa quando o planejamento esbarra em orçamentos extremamente limitados — realidade comum aos clubes do interior paulista, com raras exceções como Mirassol e Novorizontino. Os nomes indicados inicialmente são substituídos por opções mais baratas, muitas vezes sem o nível técnico exigido para a competição.

Na Série A2, os elencos acabam sendo formados por atletas de baixa qualidade técnica, mesclados com poucos jogadores em padrão de Série B nacional ou estrangeiros que não conseguiram se firmar fora do país. Soma-se a isso estruturas precárias: estádios com dependências deficientes, centros de treinamento improvisados e pouca ou nenhuma condição adequada para recuperação física dos atletas. Em muitos casos, um cenário que beira o amadorismo.

Diante desse contexto, torna-se mais fácil demitir o treinador do que investir em modernização, estrutura e, principalmente, na qualificação das diretorias. Em grande parte dos clubes, os cargos administrativos continuam sendo ocupados por “amigos” e “amigos dos amigos”, sem preparo técnico para gerir instituições esportivas complexas.

Com a popularização das SAFs, muitos dirigentes passaram a trabalhar — ou torcer — para que a venda do clube se concretize, numa tentativa clara de se livrar da responsabilidade de gestão. Uma contradição evidente, já que essa responsabilidade foi assumida no momento em que seus nomes foram colocados à disposição para eleição entre conselheiros e associados.

Os discursos se repetem: “modernidade”, “responsabilidade”, “transparência”, “respeito ao torcedor” e “continuidade”. Na prática, porém, poucas dessas promessas se cumprem. As decisões tomadas dentro das salas presidenciais raramente são comunicadas de forma clara à imprensa e à torcida. Em momentos de crise, o silêncio e o sigilo prevalecem, quando o caminho correto deveria ser justamente o oposto.

Os números confirmam o cenário. Já deixaram seus cargos neste início de Série A2:  Caiu o Fabiano Carneiro, no São Bento (assumiu Alan Dotti), Marcelo Marelli, no São José (com Jorge Castilho assumindo); Alberto Félix, na Inter de Limeira (substituído por Waguinho Dias); Rogério Corrêa, no Grêmio Prudente (com Luciano Dias no comando); e Moisés Ergert, no XV de Piracicaba, com Ricardo Chuva seu ex-auxiliar (?), assumindo interinamente.

Um caso curioso ocorreu no Monte Azul: José Gama pediu demissão alegando “divergência de ideias” com a diretoria, mas voltou atrás uma semana depois e reassumiu o comando técnico do clube — um retrato fiel da instabilidade e da falta de alinhamento interno.

Enquanto a cultura da troca rápida persistir, o futebol seguirá mascarando seus verdadeiros problemas. O treinador continua sendo o elo mais fraco da corrente — e o primeiro a pagar a conta por erros que começam muito antes do apito inicial.

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