
Brasil ocupa segundo lugar mundial em número de casos novos de hanseníase, doença que ainda enfrenta estigma social
O último domingo de janeiro marca o Dia Mundial Contra a Hanseníase, data instituída em 1954 pelo jornalista francês Raoul Follereau. Em 2026, a campanha será celebrada no dia 25 e tem como objetivo ampliar o diagnóstico precoce e combater o estigma que ainda cerca a enfermidade.
A hanseníase resulta da infecção pelo bacilo Mycobacterium leprae, que atinge principalmente pele, nervos periféricos, mucosas e olhos. A transmissão ocorre por meio de gotículas respiratórias expelidas por pacientes não tratados durante contato prolongado. A maior parte das pessoas expostas ao microrganismo não desenvolve a doença devido à resistência imunológica natural.
“O bacilo tem baixa infectividade. Apenas uma parcela pequena da população exposta vai desenvolver os sintomas. O sistema imunológico da maioria das pessoas consegue combater o agente sem que haja manifestação clínica”, explica Sidnei Bertholdi Filho, médico infectologista da Santa Casa de Piracicaba.
A Organização Mundial da Saúde registra aproximadamente 200 mil casos novos anuais no mundo. O Brasil responde por cerca de 15% desse total, ficando atrás apenas da Índia. Dados do Ministério da Saúde indicam que as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste concentram as maiores taxas de detecção no País.
O diagnóstico, segundo o médico, baseia-se em avaliação clínica. Os sinais incluem manchas na pele com alteração de sensibilidade ao calor, dor e toque. Podem ocorrer também espessamento de nervos periféricos e diminuição da força muscular. Em situações específicas, realiza-se biópsia cutânea ou pesquisa do bacilo em material de lesões.
“A Hanseniase é uma doença de diagnóstico muito difícil, pois a depender da resposta imunológica do paciente, ele pode ter poucas lesões restritas a pele ou ter uma forma muito mais grave e disseminada, deformante e mutilante. E justamente por essa resposta variada, as apresentações da doença são diferentes. O sintoma clássico da mancha na pele com perda de sensibilidade é apenas uma das várias formas que a doença se apresenta. Pacientes às vezes passam meses até terem diagnóstico correto. Cabe especialmente ao médico suspeitar e reconhecer as várias formas. Existe uma sub especialidade dentro da infectologia e da dermatologia que é a hansenologia. Não é qualquer um que é expert nesses casos”, afirma Bertholdi Filho.
O tratamento, segundo o infectologista, se chama “poliquimioterapia” que, apesar do nome, nada tem a ver com câncer. “São 3 medicações antimicrobianas: rifampicina, clofazimina, dapsona. O tratamento é todo disponibilizado exclusivamente pelo SUS – não se compra em farmácia, e dura de seis a 12 meses dependendo da forma da doença. A medicação interrompe o ciclo de transmissão e erradica o bacilo, porém não consegue reverter as lesões de nervos ou deformidades já instaladas”, informa.
O diagnóstico tardio, segundo Bertholdi, pode resultar em incapacidades físicas permanentes, que incluem deformidades nas mãos e nos pés, cegueira e perda de sensibilidade.