Walter Naime
Paz é quando o mundo tenta falar baixo. Guerra é quando alguém aumenta o volume. E o ser humano, esse bicho que se multiplica mais rápido que boleto no fim do mês, vai fervendo junto. O crescimento populacional aperta tudo: terra, comida, emprego, paciência. Mais gente disputando o mesmo espaço é receita clássica de confusão. A panela esquenta, a paz começa a borbulhar.
A fome nunca sai de cena. Ela não dá entrevista, mas decide destinos. Onde falta pão, sobra conflito. Hoje, muitas guerras começam sem tiro: começam no câmbio, nos juros, nos bloqueios comerciais. É a guerra econômica, elegante por fora e cruel por dentro. Não explode prédio, mas implode vidas.
No palco atual, os protagonistas são conhecidos e reincidentes. Os Estados Unidos seguem como maestro do sistema, mudando o regente mas mantendo a partitura. Trump, quando esteve e agora de novo no centro das atenções, representa a política do “cada um por si”: tarifas como arma, discurso nacionalista como combustível, aliados tratados como clientes. Não inventou a guerra econômica, mas transformou confronto em slogan.
Do outro lado do tabuleiro está a China de Xi Jinping, paciente, silenciosa, comprando tempo, terras, dívidas e influência. Joga longo, enquanto o mundo corre curto. A Rússia de Putin aposta na força direta misturada com energia e medo, lembrando que a guerra de força nunca saiu de moda. A União Europeia, com líderes como Ursula von der Leyen, tenta parecer árbitro enquanto joga também, sancionando com uma mão e negociando com a outra.
A Ucrânia de Zelensky virou vitrine da velha regra: quem pode mais, chora menos; quem pode menos, resiste e aparece no noticiário. Israel, sob Netanyahu, vive a guerra permanente, misturando território, religião e trauma histórico. O Irã, sob a influência do aiatolá Ali Khamenei, espalha poder indireto, como quem briga sem aparecer. A Coreia do Norte de Kim Jong-Un lembra ao mundo que o medo também é política externa.
E a Venezuela? Ah, lá a pergunta é direta: será que Maduro vai apodrecer no jogo geopolítico? Pois o velho protagonista venezuelano, Maduro, foi capturado por forças dos Estados Unidos e levado à Justiça em Nova Iorque, sob acusações de narcoterrorismo, um evento que virou símbolo de como as guerras econômicas e políticas podem transbordar para confrontos diretos entre potências e soberanias nacionais.
E o Brasil? Lula entra nesse caldeirão como figura de contraste. Enquanto Trump aposta no confronto direto, Lula insiste no discurso da conciliação, do multilateralismo, do diálogo Sul-Sul. Fala em paz, mediação, combate à fome. Mas governa num mundo onde a economia também é guerra, e onde neutralidade custa caro. Entre blocos em conflito, tenta equilibrar prato cheio e soberania, sabendo que moral sem poder vira poesia.
Ditadores grandes engolindo os menores, líderes eleitos falando em democracia enquanto usam sanções como bala… E alguém sempre repete a frase antiga: “a guerra garante a paz”. Garante nada além da próxima guerra, mais tecnológica, mais cara e mais distante de quem decide.
Há guerras de todo tipo: territorial, psicológica, ideológica, religiosa, tecnológica, de informação, de conhecimento e de força. A de força voltou a ocupar o palco, mas nunca deixou os bastidores.
A política econômica cria nichos de conflito: energia, comida, chips, dados. Quem controla isso, manda. Quem não controla, se adapta, ou some.
A guerra fria foi medo congelado. Hoje o medo é quente, corre nas redes, inflama a polarização. Divide povos, simplifica o mundo em “nós” e “eles”. Com mais gente no planeta, o medo cresce junto.
Ainda assim, dá pra imaginar um final menos trágico. Um final possível: líderes percebem que não cabe todo mundo brigando num planeta lotado. Descobrem que cooperar dá menos voto fácil, mas mais futuro. A moral construtiva, trágico-cômica e necessária: ou a humanidade aprende a dividir pão, poder e espaço, ou continuará discutindo quem manda, enquanto a paz ferve e a guerra passa o café.
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Walter Naime, arquiteto-urbanista, empresário