Quando se fala em HIV, muitas pessoas ainda associam a infecção apenas ao sistema imunológico. No entanto, com o passar dos anos, a medicina passou a compreender que o vírus pode afetar diferentes órgãos do corpo — entre eles, os rins. A insuficiência renal associada ao HIV é uma complicação séria, mas que pode ser evitada ou controlada com informação, acompanhamento médico e tratamento adequado.
Os rins têm a função essencial de filtrar o sangue, eliminar toxinas, equilibrar líquidos e regular a pressão arterial. Quando esse sistema falha, todo o organismo sofre. Em pessoas que vivem com HIV, o risco de comprometimento renal existe por diferentes caminhos, que nem sempre são bem compreendidos pela população em geral.
Um dos principais problemas é a chamada nefropatia associada ao HIV (HIVAN). Nesse caso, o próprio vírus pode infectar as células dos rins, provocando inflamação e perda progressiva da função renal. Trata-se de uma condição mais frequente em pessoas negras, o que reforça a necessidade de políticas de saúde que considerem desigualdades raciais e sociais no cuidado com o HIV.
Além da ação direta do vírus, há fatores que aumentam ainda mais o risco. Pessoas que vivem com HIV apresentam maior incidência de hipertensão arterial e diabetes, duas das principais causas de doença renal na população em geral. Quando essas condições não são bem controladas, os rins acabam sendo sobrecarregados ao longo do tempo.
Outro ponto importante diz respeito ao tratamento. A terapia antirretroviral (TARV) transformou o HIV em uma condição crônica, permitindo qualidade e expectativa de vida muito maiores. No entanto, alguns medicamentos podem ter efeito tóxico sobre os rins, especialmente se usados sem monitoramento adequado. Por isso, exames periódicos são fundamentais para que o médico avalie a função renal e, se necessário, ajuste doses ou substitua medicamentos.
As infecções oportunistas, comuns em pessoas que não estão em tratamento ou que apresentam baixa adesão à TARV, também podem comprometer os rins, seja de forma direta ou indireta. Mais uma vez, fica evidente que manter a carga viral controlada é uma estratégia de proteção não apenas do sistema imunológico, mas de todo o corpo.
Diante desse cenário, o cuidado precisa ser contínuo e integrado. Controlar o HIV com a TARV, acompanhar regularmente a função renal por meio de exames de sangue e urina, manter a pressão arterial e a glicemia sob controle e dialogar abertamente com a equipe de saúde são atitudes essenciais. A insuficiência renal não surge de um dia para o outro — ela costuma dar sinais silenciosos, que só são percebidos quando o dano já está avançado.
Falar sobre rins e HIV é falar sobre prevenção, informação e acesso à saúde de qualidade. O diagnóstico de HIV não deve ser visto como uma sentença, mas como um ponto de partida para um cuidado ampliado com o corpo. Com acompanhamento adequado, é possível viver bem, envelhecer com saúde e evitar complicações graves, como a insuficiência renal. Informação salva vidas — e, nesse caso, também protege os rins.