A quem interessa um cursinho  pré-vestibular gratuito?

Tiago Fainer

 

Não desejo falar de mim, mas para provocar reflexões que, muitas vezes, insistem em ser empurradas para debaixo do tapete. Começo com uma pergunta simples, porém incômoda: a quem interessa um cursinho pré-vestibular gratuito?

Ao que tudo indica, não à Prefeitura de Piracicaba. No dia 10 de dezembro de 2025, o Executivo vetou o projeto de lei de autoria do vereador Rerlison Resende que tratava da criação de um cursinho pré-vestibular gratuito no município. Posteriormente, o veto foi derrubado pela Câmara de Vereadores. Vitória? Nem tanto.

O projeto, embora carregue um discurso socialmente atraente, é vazio. Não aponta de onde viriam os recursos, não define grade curricular, não trata da contratação nem da valorização dos professores, não estabelece critérios de seleção, número de vagas, local de funcionamento ou qualquer mecanismo concreto de execução. É um texto inócuo. Política pública não se faz apenas com boas intenções no papel. Política pública exige planejamento, orçamento, responsabilidade e compromisso real com quem mais precisa.

Enquanto isso, na contramão do improviso e do populismo legislativo, o Governo Federal avança com uma política pública estruturada. Em 2025, sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, o Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão, lançou o CPOP — a Rede Nacional de Cursinhos Populares. O programa começou com um orçamento de R$ 25 milhões, foi ampliado no mesmo ano para R$ 78 milhões, atendendo mais de 400 cursinhos em todo o país, e já tem previsão de R$ 108 milhões para este ano.

Não se trata apenas de discurso. O CPOP garante bolsa de auxílio permanência de R$ 200,00 para os estudantes e bolsas com valor médio de R$ 1.000,00 para os professores. Há diretrizes, critérios, acompanhamento e financiamento. Há Estado cumprindo seu papel.

Piracicaba, inclusive, tem motivo de orgulho nessa história. Esse avanço também existe graças à atuação da deputada estadual e segunda presidenta da APEOESP, professora Bebel, que ainda em 2023 provocou o MEC para a construção dessa política nacional. Foi a APEOESP que, em 2020, fundou o Cursinho Popular Preparatório Paulo Freire na cidade, em parceria com a Escola Estadual Sud Mennucci, sob a direção da Professora Márcia Vieira.

Os números falam por si: 1.428 estudantes já atendidos, dezenas de aprovações nas melhores universidades do país e, agora, matrículas abertas para 400 alunos oriundos da escola pública. Isso é política pública de verdade. Com começo, meio e fim. Com impacto social mensurável. Com transformação concreta de vidas.

Diante disso, a pergunta inicial precisa ser reformulada: a quem interessa fingir que política pública se faz sem orçamento, sem planejamento e sem compromisso? Porque aos filhos e filhas da classe trabalhadora, definitivamente, interessa aquilo que funciona. E quando funciona, não é por acaso. É porque alguém fez do direito à educação uma prioridade — e não apenas um slogan de ocasião.

_____________

Tiago Fainer é professor e Coordenador Geral do Cursinho Paulo Freire

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima