Profa. Dra. Manuela Mendonça (in memoriam)

                 

Armando Alexandre dos Santos

 

É com pesar que informo aos leitores desta coluna que no último dia de Natal faleceu em Lisboa, aos 77 anos de idade, minha saudosa amiga Profa. Dra. Manuela Rosa Coelho Mendonça de Matos Fernandes, que há 20 anos exercia a função de presidente da Academia Portuguesa da História e também integrava a Sociedade Portuguesa de Estudos Medievais.

A falecida, que nos meios acadêmicos se identificava simplificadamente como Manuela Mendonça, era uma historiadora com importantes trabalhos desenvolvidos sobre o Medievo português e com uma linha de pesquisa que estudava, no Brasil, as raízes medievais da cultura brasileira.

Nascida em Montemor-o-Novo, na Província do Alentejo, em 1948, completou sua licenciatura em História e depois doutorou-se em História Moderna e Contemporânea pela Universidade de Lisboa. Na mesma instituição lecionou na Faculdade de Letras, tornando-se reconhecida autoridade em matéria de Baixa Idade Média portuguesa. Seu foco de pesquisa principal estava no relacionamento de Portugal com outras nações (e especialmente com as Coroas ibéricas) nos séculos XIV e XV. Entre inúmeros trabalhos que publicou, são de se destacar “D. João II. Um percurso Humano e Político nas Origens da Modernidade em Portugal” (1991), “As Relações Externas de Portugal nos Finais da Idade Média” (1994) e “A Guerra Luso-Castelhana no Século XV: A Batalha de Toro” (2006).

A par da carreira acadêmica, Manuela também desempenhou cargos administrativos, tendo atuado durante 7 anos como subdiretora-geral do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Interessava-se de modo particular pela cultura cigana; chegou a presidir uma instituição católica do Patriarcado de Lisboa, dedicada à pastoral dos ciganos, e integrou, no panorama internacional, o Comité Catholique International pour les Tsiganes.

Com seu infausto falecimento, assume a presidência da Academia Portuguesa da História o também querido amigo Prof. Dr. Miguel Santos Corrêa Monteiro – um grande especialista na História da Companhia de Jesus nos domínios da antiga Coroa portuguesa, incluindo, portanto, o Brasil do período designado (a meu ver erroneamente) como colonial.

A Academia Portuguesa da História foi fundada em 1720, pelo Rei D. João V, com o nome de Academia Real da História Portuguesa. Em 1910, a recém-proclamada República Portuguesa considerou-a abolida, julgando-a resquício do Antigo Regime que acabava de ser deposto e porque pretendia recomeçar a trajetória de Portugal a partir da estaca zero… como se fosse possível ignorar sete séculos de História! 26 anos depois, entretanto, a própria República decidiu restaurar a venerável instituição, com o nome atual de Academia Portuguesa da História.

Sem embargo da ligeira modificação na sua denominação, a atual APH mantém a continuidade histórica com a primitiva fundação joanina, da qual se afirma explicitamente herdeira e continuadora. Os estatutos de 1937, estabelecidos no contexto do Estado Novo, foram reformados e atualizados nas últimas décadas do século XX.

A APH se insere no aparelhamento oficial do Estado português, subordinada ao Ministério da Cultura, e tem sede num lindo edifício, o Palácio dos Lilases, situado na Alameda das Linhas de Torres, em Lisboa. Conserva a mesma divisa latina desde a sua primitiva fundação, em 1720: “Restituet omnia”, que em sentido literal significa “que sejam restabelecidas (ou restituídas) todas as coisas”. Trata-se de alusão aos feitos gloriosos da História lusa; é missão acadêmica restabelecer a verdade histórica sobre eles, elaborando uma história científica e isenta, mas que valorize o passado glorioso da nação lusa. Como registra o site da Academia, esta “desenvolve a sua atividade visando a permanente valorização e conhecimento do passado histórico português, com critério de isenção, mas sempre cultivando a importância da identificação de um povo com a gesta dos seus antepassados”.

A Academia congrega, ainda de acordo com o site institucional, “especialistas em várias áreas do saber, cuja obra seja um contributo decisivo para a História de Portugal, nos mais diversos âmbitos (linguística, militar, religiosa, regional e local etc.)” É composta por 40 Acadêmicos de Número, sendo 30 portugueses e 10 brasileiros. Somente esses 40, bem como um número ainda mais reduzido de Acadêmicos de Mérito têm direito de voto. A Academia conta ainda com um número máximo de 190 Acadêmicos Correspondentes, eleitos entre “pessoas que tenham demonstrado a sua competência pela publicação de importantes estudos de investigação e crítica” sobre a História lusa. Desses 190, até 80 são portugueses, até 20 brasileiros, até 10 cidadãos dos demais países de língua portuguesa e até 80 provenientes de outras nacionalidades.

Dra. Manuela Mendonça em 2017, quando tomei posse na Academia Portuguesa da História. Ao fundo, o Dr. Miguel Monteiro, então vice-presidente e agora presidente da APH. Ao meu lado, o editor portuense Dr. António Carlos de Azeredo.

 

 

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Armando Alexandre dos Santos, licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Portuguesa da História e dos Institutos Históricos e Geográficos do Brasil, de São Paulo e de Piracicaba.

 

 

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