A fala e a escrita dos outros

Adilson Roberto Gonçalves

 

Analisando o que articulistas, políticos, escritores, jornalistas e outros protagonistas do pensamento disseram e escreveram por aí dá uma dimensão do momento atual e – talvez o mais importante – da forma como se traduzem aquelas ideias para quem os lê e ouve.

Começando pela senadora Mara Gabrilli, que publicou, no longínquo 21/9/2025, um artigo na Folha de S. Paulo intitulado “Luta por dignidade”. A parlamentar representante da direita brasileira não é a melhor interlocutora para tratar de políticas públicas, quaisquer que sejam. O fato de ser cadeirante não lhe dá o lugar de fala quando o governo tenta aprovar uma agenda econômica que também favorecerá as contas públicas para os benefícios pleiteados, mas que é substituída no parlamento por pautas ideológicas e de autopreservação. Mostre, senadora, que também é favorável a tais compromissos antes de apenas gritar frases de efeito para seus eleitores.

Os próprios jornais, vez ou outra, passam a defender posições importantes, ainda que se escondam sob o manto do inexistente “jornalismo imparcial”. O Estadão, que acaba de completar 151 anos, ao longo do sesquicentenário firmou compromissos vários, com campanha publicitária bem representativa. A interlocução entre o fato e o leitor precisa ser valorizada. Nesse sentido, enviei duas sugestões: sair em livro todo o material que Euclydes da Cunha enviou para o Estadão – as cartas e telegramas, não apenas o que foi publicado em suas páginas –, junto com a fortuna crítica também lá publicada por ocasião do lançamento de “Os Sertões”; e que esse futuro livro seja franqueado a nós, missivistas contumazes, que também contribuímos para o estabelecimento dos fatos por meio de nossos comentários e opiniões. Independência é tudo!

Por parte da Folha de S. Paulo, no final do ano, a ombudsman tocou em irritação constante naquele jornal, que são os erros na escrita. Ao menos ela passou a corrigir os próprios, revelando a autoria das mensagens e reclamações que a ela chegam, o que não fazia antes.

Na Folha escreve Ruy Castro, um ícone da crônica, da memória fonográfica e de boas biografias. Em resposta a um artigo seu em que revela “por que eu escrevo” (19/12), digo que é por isso que eu leio. Grato, grato. Ele comemorou a queda da censura na publicação de biografias. Ainda que o cala boca já tenha morrido, as biografias estejam liberadas e a intimidade de celebridades, aparentemente, não tenha sido violada, adoto a opinião do próprio Ruy Castro em biografar somente gente morta para não ter o dissabor de um acontecimento de última hora que ponha todo o esforço a perder. Durante a vida, fatos devem ser lembrados, mas uma história completa, ainda que enviesada, somente é possível quando o ponto final for colocado.

Por fim, para falar de um bom livro lido em 2025, indico “Chico Buarque em 80 canções”, de André Simões (editora 34), aniversariante do dia. A despeito da boa literatura engajada ao longo do ano, exemplificada pelos escritores negros, esse livro comemora os 80 anos do Chico com seleção primorosa de canções e contextualização histórica de sua gênese, particularidades e curiosidades feitas pelo jornalista André Simões. Uma excelente leitura e um livro de referência, também indicado ao Jabuti na etapa inicial.

 

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Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp – Rio Claro

 

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