Perdão: ser ou não ser merecedor

 

 

Ronaldo Castilho

 

Perdoar sempre foi um dos temas mais complexos da experiência humana. Ao longo da história, religiões, filosofias e correntes de pensamento se debruçaram sobre essa atitude que, à primeira vista, parece simples, mas que, na prática, exige coragem, maturidade e profunda consciência de si. A grande pergunta que frequentemente surge é: quem merece perdão? No entanto, talvez essa seja a pergunta errada. O perdão não diz respeito, em primeiro lugar, ao merecimento de quem errou, mas à libertação de quem foi ferido.

Há um equívoco recorrente que precisa ser superado: o de que o perdão é um sentimento. Não é. Sentimentos são voláteis, mudam conforme o tempo, o contexto e as emoções do momento. O perdão, ao contrário, é uma atitude deliberada, uma decisão consciente. Ele pode até coexistir com dor, indignação ou tristeza. Perdoar não significa esquecer, minimizar o erro ou negar a injustiça sofrida. Significa escolher não viver prisioneiro dela.

Desde a Antiguidade, pensadores já refletiam sobre o peso que o ressentimento impõe à alma humana. Para os estoicos, por exemplo, guardar rancor era permitir que o outro continuasse exercendo poder sobre nossa vida interior. A verdadeira liberdade, afirmavam, consistia em dominar as próprias reações. Nesse sentido, o perdão surge como um exercício de autonomia: ao perdoar, o indivíduo deixa de ser refém do passado.

Na tradição cristã, o perdão ocupa lugar central. Não como um gesto romântico ou ingênuo, mas como uma exigência ética profunda. A ideia de perdoar “setenta vezes sete” não se refere à contabilidade de ofensas, mas à disposição permanente de romper o ciclo da vingança e do ódio. Essa visão influenciou profundamente a

cultura ocidental, ao associar o perdão à possibilidade de renovação da vida e das relações humanas.

Outros pensadores, em épocas distintas, também compreenderam o perdão como necessidade vital. Na filosofia moderna, há quem tenha apontado que o ressentimento corrói lentamente aquele que o alimenta. A pessoa ressentida revive o dano repetidas vezes, prolongando a dor muito além do ato original. Assim, o agressor pode até ter causado a ferida, mas é o rancor que a mantém aberta. Perdoar, nesse contexto, não é absolver o erro, mas interromper o sofrimento contínuo.

É importante destacar que o perdão não está condicionado à admissão de culpa por parte de quem errou. Esperar um pedido de desculpas pode significar adiar indefinidamente a própria cura. Muitas vezes, o outro sequer reconhece o dano causado, ou já não faz mais parte de nossa vida. Vincular o perdão à atitude alheia é entregar a terceiros o controle sobre o próprio bem-estar emocional. O perdão autêntico é um ato soberano: acontece dentro de quem decide perdoar.

Do ponto de vista psicológico, diversos estudos contemporâneos indicam que pessoas que cultivam o perdão apresentam melhores índices de saúde mental e emocional. Menores níveis de ansiedade, estresse e até problemas físicos estão associados à capacidade de liberar mágoas. Isso reforça a ideia de que o perdão não é apenas uma virtude moral, mas também uma estratégia de sobrevivência emocional. A vida simplesmente não prospera onde o rancor se instala como moradia permanente.

Prosperar, aqui, não se refere apenas a sucesso material. Prosperar é viver com leveza, estabelecer relações mais saudáveis, manter clareza de propósito e paz interior. Uma pessoa que não perdoa carrega pesos invisíveis que drenam sua energia, distorcem sua percepção da realidade e contaminam novas relações com dores antigas. Muitas vezes, conflitos atuais são apenas ecos de feridas não resolvidas do passado.

Há também uma dimensão social do perdão. Sociedades que não sabem perdoar tendem a perpetuar ciclos de violência, exclusão e revanche. A história mostra que a incapacidade de perdoar pode alimentar guerras, segregações e injustiças prolongadas. O perdão, nesse sentido, não é sinal de fraqueza coletiva, mas de maturidade civilizatória. Ele permite recomeços, reconciliações e a reconstrução de laços rompidos.

Isso não significa, é fundamental esclarecer, abrir mão da justiça. Perdão não é impunidade. É possível e necessário responsabilizar atos, estabelecer limites e buscar reparação sem nutrir ódio. O perdão atua no plano interior; a justiça, no plano social e institucional. Confundir esses níveis gera frustrações e distorções perigosas. Perdoar não impede a busca por direitos, mas impede que a alma seja consumida pela amargura.

Outro aspecto essencial é compreender que perdoar é um processo. Nem sempre acontece de forma imediata. Há dores profundas que exigem tempo, reflexão e, muitas vezes, ajuda. O erro está em confundir dificuldade com impossibilidade. Mesmo quando o perdão parece distante, a decisão de caminhar em sua direção já é um passo transformador. É o início de uma mudança interna que, aos poucos, ressignifica a experiência vivida.

Perdoar, em última instância, é um ato de amor-próprio. É reconhecer que a própria vida vale mais do que a manutenção de uma guerra interior. É escolher a liberdade em vez da prisão emocional. Independentemente de quem esteja certo ou errado, o perdão devolve ao indivíduo o controle de sua história. Ele não apaga o passado, mas redefine seu poder sobre o presente.

Diante disso, a pergunta inicial perde relevância. Não se trata de saber quem merece ser perdoado, mas de compreender que todos merecem viver sem o peso do ódio. O perdão não absolve necessariamente o outro; ele liberta quem perdoa. E só uma vida livre de ressentimentos pode, de fato, florescer em plenitude.

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Ronaldo Castilho é jornalista e articulista, com pós-graduação em Jornalismo Digital. É licenciado em História e Geografia, bacharel em Teologia e Ciência Política, e possui MBA em Gestão Pública com ênfase em Cidades Inteligentes.

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