Golpe na Venezuela?

Adilson Roberto Gonçalves

O rapto de um mandatário em seu próprio território tem sido chamado de captura pela mídia local: “Estados Unidos capturam Nicolás Maduro”. Interessante e importante os termos que são adotados de forma comum entre os meios de comunicação, pois isso representa o que realmente pensam sobre a situação, melhor do que publicam em editoriais. Se consideram captura, nada veem de ilegal na ação militar de um país sobre outro, qualquer que seja o argumento. Se amanhã Donald Trump entender que os minerais presentes na Amazônia são importantes para a segurança nacional dos Estados Unidos, ele poderá enviar tropas para “tomar conta da região”.

Além da imprensa com suas sutilezas de uso de palavras e expressões para esconder um inexistente jornalismo isento, o mais temeroso são os políticos nacionais aplaudindo a ação no país vizinho e até clamando para que se faça o mesmo aqui! Ou seja, perdi as eleições e chamo o mais forte lá do norte para tirar o eleito do poder. Dentre esses políticos estão misérias humanas, todos de partidos de extrema-direita, mas também governadores legitimamente eleitos junto com o presidente da República, pelo mesmo processo eleitoral limpo, soltaram notas aplaudindo o sequestro de Nicolás Maduro. O governador fluminense de São Paulo chegou a interromper seu banho de sol nas praias da Flórida para digitar sua mensagem nas redes sociais nesse sentido. Cinco minutos para quem não se importa com o que está acontecendo no início do verão aqui é muito tempo.

Ou seja, a soberania nacional não é política da extrema direita brasileira, pelo jeito. Independente da instabilidade na Venezuela, apoiar a invasão do país pelos EUA é insano, tal qual foi a defesa do tarifaço imposto ao Brasil. Trump não quer a democracia, quer o petróleo para manter o padrão de vida inaceitável de seus cidadãos norte-americanos.

As eleições na Venezuela de 2024, ao que tudo indica, foram fraudadas e é bem provável que Maduro não tenha sido eleito legitimamente, tanto é que o governo brasileiro não reconheceu o resultado. O povo daquele país há muito tempo clama por mudanças na administração, pelas informações que nos chegam, mas é improvável que deseje uma intervenção de outra nação para resolver suas mazelas. Ou, na verdade, para aumentar a crise política. Mas isso não significa apoiar um sequestro em solo venezuelano.

A vice-presidente Delcy Rodriguéz foi mantida no cargo de presidente interina e acompanharemos se isso será suficiente para acalmar os ânimos revoltosos. Há rumores de que grupos do próprio governo alimentaram as forças invasoras norte-americanas com informações que levaram ao rapto de Maduro. Também é aventada a hipótese da ação ser parte de um golpe de Estado que estaria agregando interesses econômicos dos EUA com os de políticos desses grupos venezuelanos. A manutenção de Delcy Rodriguéz no comando do país é intrigante, uma vez que é militante chavista bem mais atuante do que o próprio Maduro.

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Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador da Unesp – Rio Claro

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