Porque amanhã é sábado – Entre árvores e natais

Lá está ela, novamente, no canto da sala, a encher a casa de luzes cada vez mais artificiais e de nostalgia. A velha árvore de natal aqui de casa há mais de vinte anos invade o final do mês de novembro e surge radiante junto de dezembro ao lado do sofá (esse “radiante” tem um quê de ironia que vem das lojinhas orientais da Governador). Sempre penso que é cedo demais para montá-la, que talvez valha a pena esperar um pouco mais. Mas acabo cedendo ao desejo de ver a casa se esforçando para entrar naquele clima natalino de comercial de panetone e, quando me dou conta, estamos montando a dita cuja. Felizmente – no entanto – graças ao inferno climático este ano descartei as bolas cobertas de farofa de isopor imitando neve.

Depois de plantá-la sobre a base de concreto que lhe sustenta o tronco de plástico, fico olhando para ela – assim meio como naquele poema do Drummond, o “Um Boi vê os Homens” – e me pego pensando, copo de uísque com gelo nas mãos: se a minha velha árvore de natal pudesse falar, certamente diria dos natais de outrora, de tudo o que ouviu, viu e viveu nas suas mais de duas décadas. Penso que seu relato daria conta de revelar perdas sem pisca-pisca, de expor tristezas de papais-noéis e alegrias tímidas sob o som daquelas musiquinhas típicas de fim de ano. Daí me invade a tal da nostalgia natalina e, sem conseguir escapar do clichê, lembro-me como eram diferentes os natais do passado (idade é fogo!).

Talvez eu esteja inventando. Talvez esteja construindo uma lembrança feito memória viva. Mas tenho por mim que nos natais de outrora havia no ar uma sempre-novidade, uma expectativa de chegadas, uma ansiedade de alegria. Talvez não fosse – que seja, fazer o quê –, mas em imagem-sensação tenho que o natal era, para mim, um acontecimento. A casa ficava cheia. Gente que quase nunca víamos chegava de todos os lados. Tios, tias, primos, amigos, amigos de amigos, maridos de umas, esposas de outros, latidos de cachorro, o presépio se equilibrando sobre a mesa estreita em meio ao povaréu. E a velha árvore – não a minha de agora, a da minha casa de infância – jazia plantada solene num sem-fim de cartões de natal (alguém ainda se lembra dos cartões de natal?).

As árvores de natal, penso, também eram diferentes. Durante parte da minha infância a árvore de natal de minha casa era feita de madeira enrolada em fitas de cetim. De árvore, de fato, ela só tinha o desejo – o mais ficava pela boa vontade do observador. Mas era colorida, e repleta daquelas bolas que, quando caíam no chão, se espatifavam completamente. (Não havia um ano em que não quebrássemos uma meia dúzia). As luzes também eram diferentes. Eram românticas, quase líricas, e acendiam docemente – nos sem-exageros. Depois de alguns anos, compramos uma “nova” – toda verde – imitando pinheiros europeus (uma beleza!).

Acho que a máquina de moer os dias nos faz chegar em dezembro exaustos. A cada ano, o desejo maior parece ser apenas o de estar vivo ao final dele. A cada ano, ao menos para mim, parece que montar a árvore de natal tornou-se uma atividade que exige um esforço sobre-humano. Sei até de alguns conhecidos cujas árvores ficam prontas, montadas o ano inteiro dentro do guarda-roupa – esperando apenas o natal chegar para saírem do armário (está aí uma boa metáfora para “sair do armário”). Não há rito. Não há celebração. Não há gostosuras. Cumpre-se apenas uma obrigação – e olhe lá.

Há ainda, e que bom, aqueles que – como eu – insistem (mesmo que incrédulos e quase ateus) em montar ritualisticamente a sua árvore de natal, seja ela a qual for. Pensando bem, talvez não seja o natal que esteja diferente – talvez eu é que tenha envelhecido rápido demais. Velhos ou não, cansados ou não, cá estamos nós – novamente – vivendo mais um natal. Um natal novo, talvez, cada vez mais comercial, mais capitalista, mais indiferente ao verdadeiro espírito do natal (se é que ele existe). Apesar de tudo, acho que montar a árvore de natal parece que nos dá ainda a percepção de que seguimos, todavia, plenos de possibilidades de podermos erguer, dentro de cada um de nós, a nossa própria árvore de vida, repleta do brilho intenso do qual todos nós tanto precisamos. E isso talvez já seja um motivo imenso para festejarmos.

Alexandre Bragion é cronista deste matutino desde 2017

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