Apurar os crimes e punir os seus responsáveis, doa a quem doer

José Machado

 

Tenho acompanhado com atenção e estarrecimento o caminhar das investigações e os debates que as cercam sobre as tentativas de golpe antes e depois das eleições do ano passado, sobre a falsificação da caderneta de vacina para viabilizar a entrada nos Estados Unidos de Bolsonaro e caterva e sobre a apropriação indevida e venda de joias valiosíssimas recebidas pelo ex-presidente Bolsonaro a título de mimos oferecidos por autoridades de países árabes.

Esse rumoroso caminhar inevitavelmente culminará, espera-se, no julgamento e na condenação à prisão de todos os envolvidos, a começar pelo referido ex presidente. Digo isso não por mero palpite ou desejo, mas porque as evidências e provas se acumulam com clareza meridiana e inescapável. Não é necessário ser jurista para compreender a gravidade dos fatos criminosos, repito, cravejado de provas, cometidos por elevados próceres da República brasileira contra a Democracia, atingindo a dignidade e a liturgia do cargo presidencial e desmoralizando instituições merecedoras de consideração e respeito como as Forças Armadas.

A trama golpista em nosso país vem de longe, mas ganha contemporaneidade a partir do golpe encetado contra a ex presidenta Dilma Roussef, a qual, por sinal, acaba de ser inocentada em definitivo pelo Tribunal Regional Federal da 1ª. Primeira Região – TRF1 das acusações que pretensamente foram usadas como justificativa para o impeachment contra ela, ou seja, as tais pedaladas fiscais. Depois vieram aberrações como a ordem expressa do General Villas Boas ao Supremo Tribunal Federal para que este não concedesse habeas corpus ao então ex presidente Lula, manobra associada à proibição a Lula de se candidatar à presidência da república em 2018 e a sua posterior condenação, sem provas, pelo juiz malfeitor Sérgio Moro, episódios tristes e vergonhosos que, apesar de praticados por poucos irresponsáveis, enlameiam a magistratura no Brasil. E mais recentemente, entre outras evidências golpistas: a trama, protagonizada por Bolsonaro e figuras proeminentes das Forças Armadas para melar as eleições em 2022, a pretexto de desconfiança sobre as urnas eletrônicas; a ocupação fronteiriça aos quartéis por fanáticos de ultradireita, clamando pela intervenção militar; a ação da Polícia Rodoviária Federal bloqueando ônibus com eleitores em rodovias da região Nordeste do país no segundo turno das eleições, a partir de avaliação, baseada em pesquisas, de que nessa região Lula seria o favorito; a pretensão de fazer explodir bomba no aeroporto de Brasília, ato terrorista felizmente neutralizado; manifestações violentas em frente à sede da Polícia Federal em Brasília no dia da diplomação do Presidente Lula; e os acontecimentos do dia 8 de janeiro em Brasília, com a destruição criminosa das sedes dos três poderes, os quais só não redundaram em intervenção militar, para materializar o golpe, pela reação firme dos presidentes desses poderes, pela resistência de militares legalistas e pela repercussão negativa tanto na sociedade brasileira como na comunidade internacional.

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, convocada para apurar essa trama toda, mas sobretudo os atos do dia 8 de janeiro, vai, aos poucos, paralelamente às investigações conduzidas pela Polícia Federal, tecendo o fio da meada e indubitavelmente concluirá pela responsabilização dos cérebros e financiadores da intentona golpista.

Nos últimos dias, o depoimento do hacker Walter Delgatti na CPMI foi demolidor, pois revelou que o então Presidente Bolsonaro o recebeu no Palácio da Alvorada, conduzido pela Deputada Carla Zambelli, para que ele subsidiasse tecnicamente o propósito de desmoralização das urnas eletrônicas; e que Bolsonaro determinou ao Ministério da Defesa que recebesse Delgatti e se valesse da sua expertise para essa finalidade criminosa. As investigações da CPMI e da PF sobre essa trama vão trazer à luz se houve ou não militares de alta patente envolvidos, mas tudo indica que sim. É simplesmente estarrecedor um presidente da república acolher um hacker na residência oficial! E igualmente ele ter sido recebido no Ministério da Defesa!

A apropriação indevida e a posterior comercialização, para benefício próprio, de joias recebidas pelo ex presidente Bolsonaro a título de mimos oferecidos por autoridades de países árabes, em conformidade com o atual estágio das investigações a respeito, revela, convenhamos, o caráter desse personagem e de todos os personagens ao seu redor que se envolveram nesse episódio criminoso e grotesco, típico de batedor de carteira!

Apesar dessas aberrações todas, que enojam amplas camadas da sociedade, o fato é que estamos diante de uma oportunidade histórica única para a consolidação em nosso país do Estado Democrático de Direito, que é a punição exemplar de todos os envolvidos nesses crimes.

No caso dos militares envolvidos, em particular, é bom prestar atenção para que não ocorram subterfúgios de modo a aliviá-los de punição. As Forças Armadas representam um elevado valor para o país, dada sua responsabilidade indispensável na defesa da soberania nacional, e sua desmoralização não interessa aos brasileiros e brasileiras. É chegada a hora de separar no seu interior o joio do trigo e promover o seu afastamento em definitivo da militância política, uma perversão que tem acontecido ao longo de nossa história republicana e, mais particularmente, no bojo do governo Bolsonaro.

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José Machado (PT), economista, professor universitário, foi prefeito de Piracicaba em dois mandatos, ex-deputado federal

 

 

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