Humanas mais exatas

Adilson Roberto Correr

Estágios, disciplinas eletivas, atividades intercursos, interdisciplinares, interunidades, interuniversidades, bolsas de estudo, de pesquisa, de extensão, bolsas-sanduíche, projetos integradores, estudos em grupo, trabalhos em equipe, a resolução nº 8 do Ministério da Educação. Inúmeras ações de formação profissional, ligadas não só ao fator “formatura”, mas também às relações de formação do ser humano completo. Essa lógica traz, às universidades, os universos das relações ético-histórico-sociais que completam o conteúdo de qualquer área de formação. Estudar humanas e/ ou exatas tornou-se sinônimo de correlacionamento com o mundo que rodeia as “academias” (termo do século III A.C., nomeando o espaço onde Platão discutia questões filosóficas: Jardins de Akademus).

Hoje, temos graduações que somam 3.800 horas de estudo para conferir um diploma, uma base de 12 disciplinas anuais, durante cinco anos. Dessa carga horária, 10% demandam que os alunos as executem “fora”. Selecionando planos de estudo ou de ação na comunidade. Trata-se de aplicar o ensino/ aprendizagem em ações não obrigatórias: o aluno, a aluna não é obrigada/a escolher planos de sua área específica, mas, sim, das que necessitam de sua humanidade.

Pode-se perceber que eles, elas não só trabalham os conhecimentos específicos, como também levam sua força braçal e mental para contribuir na organização humanizada da comunidade, da qual identificam os principais desafios vivenciais.

Quando propomos que um formando, uma formanda em engenharias participe do trabalho numa entidade com pessoas de necessidades especiais, nós não queremos apenas seu conhecimento específico, mas também seu apoio a quem possa e/ou nunca possa seguir o caminho de formação. Nessa interação, sentem-se a empatia, a dor, o suor e o prazer em proporcionar melhorias a quem necessita e a seu próprio crescimento. Uma simbiose que podemos sintetizar na definição do conceito de “trabalho”, em Sandra Gemma (2013): Trabalho constitui a transformação da natureza a favor do ser humano. E ser transformado por ela!

Uma metodologia peripatética (do filósofo Aristóteles, no Liceu, que propiciou ensinar seus alunos ao ar livre, caminhando) na qual o caminhar ocorre na mente, enquanto o jardim corresponde ao mundo.

Um aluno consegue entender melhor a complexidade de um ensaio de dureza, no equipamento durômetro, quando o relaciona à vida: um ensaio para verificar a resistência de um material às forças que se lhe aplicam e o quanto ele as suporta. Primeiro, uma pré-carga onde se estabelece o final do momento elástico (forças que não alteram o material e permitem que ele retorne ao estado de origem, quando se retiram as forças de ensaio) e, segundo, quando se lhe aplicam forças que vão além e que deformam o material, fazendo uma marca, cujos cálculos de força e de área determinam a resistência, a dureza desse material. Por enquanto, isso se relaciona às “exatas”; todavia quando se faz a pergunta: Você, meu aluno/ minha aluna, quanto suporta para trilhar esse caminho de formação profissional de nível superior? Quanto se encontra disposto/a a se transformar em um ser humano que irá proporcionar mais vida a outro ser humano e ao meio ambiente?

Caríssimos (as) leitores (as), vocês não imaginam a grandeza de ver o brilho nos olhos dos seres humanos que passaram por essa didática (a arte de instruir). E, melhor ainda, quando retornaram de suas ações na comunidade. Um amadurecimento além da curva (considerem essa frase como amálgama entre humanas e exatas, rss).

“Durômetro” nomeia, apenas, um instrumento dentre os mais de 600 equipamentos que compõem os laboratórios, usados por mais de 200 profissionais nas áreas de ensino/ aprendizado na Unidade em que atuo.

Finalizo esta reflexão mencionando o cumprimento recebido, quando do encontro com um ex-aluno que se tornou professor. Um mestre encontrando seu mestre: “Meu professor! Eu me transformei”. Lembro-me até hoje: Carpe Diem, tornem suas vidas extraordinárias!

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Adilson Roberto Correr, professor de Filosofia, Mestre em Educação e graduando em Engenharia de Produção; e-mail: [email protected]

 

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