Escutei seu assovio vindo de dentro do meu álbum de retratos vazio. Era uma melodia que mal se ouvia, que não tinha corpo nem estado, mas que se repetia muda e fria a cada olhar do meu olhar marcado – sempre esperando para te ver e te dizer que sim, que a vida é assim e que está tudo perdoado.
Repeti depois eu mesmo essa música crua enquanto via nossas não-fotografias querendo ser mensagens de um passado negativo e sem imagens. Contei, então, para mim, sobre nossas conversas não tidas. Me relatei ansioso nossos encontros nulos. Refrisei, como se lembrasse, cada palavra não dita – e inventei outra composição e a assoviei como se fosse ela uma trilha de cinema mudo: registro de sua ausência que está impregnada em tudo.
Daí, corri as páginas úmidas do meu álbum inventando dados e me dando essências brancas de reminiscências não vividas, de desejos reprimidos e inflados. Foi quando, tocado de tanta emoção, de tanto lembrar sem ter lembrado, foi quando desenhei à mão – bem no meio da página central do meu álbum sem recordação – um coração trincado e registrei, por fim, assim, o fim do nosso amor não começado: eu, criança, riscando no chão uma flecha cupido apenas com o meu nome de um lado.
Depois, virei a página como se deve – não sem algum receio ou medo – e guardei meu álbum em segredo no fundo de um armário de concreto a(r)mado. Mas haja concreto, amor e armário para tanto viver sem sentido. Até hoje, às vezes, seu assovio – como um rio ao longe – ainda, por mim, consegue ser ouvido.
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Alexandre Bragion é doutor em Teoria e História Literária pela Universidade de Campinas – e cronista deste matutino desde 2017