
A humanidade resiste e supera todas as adversidades graças ao seu imbatível instinto de sobrevivência. Resistir, reagir, enfrentar, superar os males e superar-se a si mesma são os dons que nos permitem sobreviver ao longo de milênios. De repente, quando tudo parecia estar a perder-se, eis que uma reação coletiva – tal qual uma onda envolvente – revela a insuperável força da reação.
O Brasil está a perigo, ameaça visível, palpável, impossível de ser ignorada. Apenas os coniventes, cúmplices, insensíveis não se dão conta da tragédia iminente. Ou fingem não vê-la. Ou – mais desgraçadamente ainda – querem que aconteça. Está acontecendo o que o ex-soldado Bolsonaro havia prometido às claras e sem meias palavras: “Eu vim para destruir.” E ninguém, em sã consciência, poderá negar que ele esteja tentando cumprir o prometido. O ex-soldado na presidência tem uma concepção de mundo, de vida, de Brasil na qual não há espaço para o amor, para a solidariedade, para a compaixão. Como se fosse um débil mental dando-se ares de um deus de opereta, ele quer construir um mundo à sua imagem e semelhança. E, portanto, gerado por ódios e reprodutor de horrores.
No entanto, a dignidade humana existe e sobrevive. E ela é coletiva. Pois, quando a ameaça de destruição chega a seu limite, a terceira lei de Newton funciona também na ordem moral e política: “a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas que atua no sentido oposto.” A ação odiosa do governo brasileiro provocou uma reação de grandeza da sociedade brasileira que está atuando em sentido oposto à destruição desejada pelo ex-soldado. Novamente, o Brasil se ergue e os atores superam divergências, conflitos, ideologias, partidarismos políticos unindo-se num só objetivo: a pacificação e a concórdia em prol da democracia.
Confirma-se a verdade milenar de que, na vida pessoal e social, há um eterno retorno. Ou seja: à beira da derrocada ou da decadência, os humanos recorrem à sua última via de renovação, que é retorno aos valores e princípios. O Brasil assiste a essa reação. Aconteceu outras vezes. Há algumas décadas, para enfrentar a ditadura militar, as praças, ruas e palanques brasileiros viram a união de homens e de forças que buscavam os mesmos objetivos por caminhos diferentes: a liberdade, a democracia. Lideranças suprapartidárias e ideológicas. Vimos, então, Lula, Leonel Brizola, Fernando Henrique, Ulisses Guimarães, Teotônio Villela e tantos outros superando divergências político-ideológicas contra a tirania, em prol da liberdade.
Agora, tantas décadas depois – e quando o Brasil já amadurecia para a plena vida democrática – a tirania, sob o comando medíocre de um ex-soldado, volta a nos ameaçar. É a derrocada à vista! E, então, o eterno retorno, a retomada dos princípios vitais. Superam-se divergências e um bem maior – o bem precioso da liberdade – une lideranças poderosas. Lula e Fernando Henrique novamente, com Simone Tibet, com o ainda tímido Ciro Gomes, expoentes da magistratura, gênios da economia – a grandeza e a dignidade brasileiras irmanadas para enfrentar a mediocridade tóxica comandada por um ex-soldado enfermo de suas alucinações.
“Non passarán!” – foi o grito heroico de La Passionária para enfrentar a tirania espanhola. Esse brado percorre os ares do infinito e ecoa no Brasil. “Non passarán” – gritam nossos líderes às hordas vestidas de pijamas militaristas. É uma guerra cívica. Os democratas com as armas da verdade; os tiranetes com espadas enferrujadas embainhadas em seus velhos pijamas. Escolher o lado é definir caráter.