A pior doença do ser humano

Silvia Helena Rigoldi Simões

 

Os vírus, como os dacovid-19, têm assustadoo ser humano, que busca incessantemente valorizar pesquisas, vacinas e muitas outras novas formas tecnológicas para a preservação da espécie. Nada mais nobre e desejável. Enquanto tais doenças vão se encaminhando para descobertas abençoadas, em direção à saúde do corpo físico, outra moléstia mais grave e mortal alastra-se sob as sombras da intolerância, da agressividade.

Exemplifica tais observações, um fato ocorrido na semana passada. Pode-se pensar que o cenário seja aquele de uma região miserável, habitado dolorosamente por pessoas marginalizadas, sem nenhum tipo de assistência educacional, cultural, também vítimas da inconsequência humana. Nada disso.

Aconteceu em uma grande cidade do interior paulista, como bem poderia ter sido em qualquer outra “cidade progressista” do Brasil. Fato chocante. Um senhor de cerca de 71 anos saiu de casa para buscar o costumeiro remédio. Parou no ponto de ônibus ali perto, quase em frente a uma escola, à espera do transporte. Naquele momento,chegou uma estudante, olhou para aquele constrangido velho todo trêmulo e, num julgamento precipitado, chamou familiares pelo celular. Dizia ao pai que um velho se masturbava ali perto dela. Enquanto isso, nervoso,aquele senhor não conseguia tirar a mão trêmula do bolso, nem articular uma palavra, tal seu desespero, principalmente, quando viu dois homens(chamados pela garota) aproximarem-se com pedaço de madeira, soltando a ira sobre ele. Nem deu tempo para uma explicação. O sangue correu, atraindo os gritos dos vizinhos, que o acudiram. Uma ambulância gritou por passagem até a UTI, ondeele lá  ficou, com perfuração de pulmão, fratura de vértebra, edema cerebrale com uma ferida moral difícil de cicatrizar.

O crime? Tremor devido à Doença de Parkinson. É muito comum a vergonha das mãos trêmulas, normalmente levadas ao bolso, mesmo que como um disfarce inútil. Em situação conhecida por ‘off’,isto é, em crise própria da doença, que dificulta os movimentos, não conseguia  puxar a mão do bolso, que continuava incontrolável.

E o que é tal doença? Ainda sem cura, é uma moléstia neurodegenerativa progressiva. Ela não é contagiosa, como muitos temem. Ela ocorre devido à perda de uma substância chamada dopamina, responsável pelo funcionamento motor da pessoa. Por isso acontecem os tremores das mãos, os desequilíbrios posturais(que podem ser confundidos com excesso de bebida), a lentidão de movimentos(comoa dificuldade de tirar as mãos do bolso), os congelamentos(que imobilizam a pessoa num lugar, sem que ela consigase mexer).

Todas essas limitações podem ser mostradas e aprendidaspara secompreenderem os dramas pelos quais uma pessoa com Parkinson passa no cotidiano. Assim, com os esclarecimentos difundidos, por exemplo, pela mídia, ou pelas Associações de apoio às pessoas com deficiência, é possível que a sociedade consiga, principalmente, após graves fatos como esse,aprender a conviver de forma mais tolerante.  O próprio fato pode, felizmente,despertar para muitos o entendimento necessário.

Há, no entanto, uma ignorância muito mais cruel que contamina ainda muitas pessoas.Pior que qualquer vírus, desagrega e mata: a violência, a volta à “justiça pelas próprias mãos”, num retorno a práticas primitivas, incivilizadas. E um planeta que precisa ser mais humanonão pode permanecer num obscurantismo cada vez mais anacrônico. É tempo de o ser humano  evoluir como uma grande comunidade.

Só nos resta prestara nossa solidariedade à família e apelarà Justiça para que selvageriasdegradantes não sejam esquecidas nas gavetas da impunidade.

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Silvia Helena Rigoldi Simões, presidente da Colibri – Associação Brasil Parkinson- Núcleo Piracicaba

1 comentário em “A pior doença do ser humano”

  1. Parabéns pelo seu depoimento , muitas pessoas não sabem o que é essa doença nem quem está do lado dia a dia!!!? Precisa ser mais divulgada

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