Homens e bichos, patas e patadas

José Osmir Bertazzoni

 

A Revolução dos Bichos trata-se de um romance escrito, em 1945, por George Orwell e tornou-se um dos maiores best-sellers do mundo. A história romantizada em personagens animalescos tem como configuração uma opinião satirizada da vida real, com muita pimenta e de uma percepção histórica muito realista, até para os nossos dias. Sem dúvida, uma das obras mais emblemáticas do escritor e ensaísta indiano.

Peço vênia aos leitores para fazer uma tentativa de colocar em cada um dos personagens da obra a figuração das ocorrências quotidianas na construção hipotética das nossas autoridades municipais, restringindo-me aos últimos acontecimentos no Poder Legislativo da nossa amada Pamonhascity.

Não é pretensão deste autor plagiar a obra de George Orwell, tampouco ridicularizar nossos respeitados vereadores. Em senso contrário, pretendo apenas dar vida aos bastidores da política com um pouco de humor.

A Revolução dos Bichos possui poucos personagens, os quais identificaremos no figurativo imaginário de cada leitor.

Na história de George Orwell, estabelece-se como espaço central uma fazenda de animais (que denominaremos Pamonhascity). Ali, os animais, eleitos camaristas, discutem e almejam a construção de uma sociedade ideal. No aperfeiçoamento deste objetivo, os animais camaristas criam um conjunto de regras e começam a pensar numa revolta contra os humanos (humanos pensam diferente dos bichos), sobretudo, o dono do latifúndio, Sr. Jones.

Mister Jones é o Alcaide da Pamonhascity, empresário, fazendeiro e mantenedor da granja. Homem austero e com um temperamento difícil, ele tenta cuidar dos bichos camaristas, mas muitas vezes os desagrada e deixa-os raivosos.

Mas não é somente o Alcaide que os degradam, os bichos camaristas também possuem desafetos em todos os cantos do vilarejo, são todos humanos, que andam sobre duas patas.

Descontentes e revoltados, o camarista presidente Porco Major apresenta a ideia de fazer uma revolução contra Mister Jones e todos que andam sobre duas patas. Assim, os animais expulsam o Alcaide da fazenda. É imperativo observar que os porcos são os animais mais inteligentes e que lideram o local. Eles foram mais instruídos e sabem ler e escrever, fazer discursos, moções de repúdio e até requerimentos para contrapor quem anda sobre duas patas, não de porcos lógico.

Ainda no início da leitura desta fantástica obra, o porco Mor falece, mas a ideia transmitida por ele é seguida por seus alienados. Embora animais tenham a mesma percepção, no transcorrer da leitura, começam as peripécias e os impasses de opiniões entre eles, os camaristas de quatro patas.

Enquanto o porco Bola-de-neve-da-Buchecha-vermelha, que se considera o grande líder da fazenda e percussor da revolução, quer realizar a construção de OSS’s para terceirizar os serviços de captação de energia para girar um moinho, o porco Napoleão Polenta (bolsonarista de carteirinha) é contra a ideia e não aceita piadas engraçadas no Festival de Humor e é contrário ao uso de encenação nos teatros da city; defende também o uso de absorvente íntimo feminino aditável. Por fim, Bola-de-neve-da-Buchecha-vermelha é considerado traidor e expulso da fazenda.

Napoleão Polenta revela ainda mais sua postura autoritária, prendendo-se em sua fantasiosa perturbação mental com confusões ideológicas e defesa do terraplanismo e do kit cloroquina, convence outros animais a se rebelarem contra o líder. A ideia exposta na leitura da obra de Orwell recai sobre os interesses pessoais e, ainda, da corrupção e do golpe. Essa figura é sempre escoltada por cães raivosos, que são seus assessores.

Vamos adentrar agora em uma ficção, porém, é a visão do autor: Quando Napoleão Polenta sobe ao poder, essas características ficam mais evidentes. Seu egoísmo e totalitarismo são revelados pela maneira como ele conduz a fazenda, depois de destituir e expulsar Bola-de-Neve-da-Bochecha-Vermelha da liderança.

Revelam-se os instintos autoritários, ele coloca os animais para trabalharem como escravos (pejotização, uberização etc) e reduz a quantidade de comida (principalmente carne bovina, cereais; elevando absurdamente os custos de gás natural e combustíveis). Acaba construindo o moinho. Interessante notar que a ideia de se rebelarem contra os humanos para atingir a liberdade tornara-se uma falácia. Isso porque começa um novo tipo de exploração, mas agora de animais para animais. Embora a ideia fosse se afastar dos humanos, com o crescimento da fazenda e a construção do moinho, o porco Napoleão tem uma relação com seu advogado humano.

Os materiais utilizados para a construção do moinho não podiam ser obtidos na fazenda, e eram necessários, portanto, contratos comerciais advindos de outras OSS’s.

Com o passar do tempo, os porcos decidem habitar a Casa Grande em que vivia Senhor Jones. Indignados por estarem tendo uma qualidade de vida pior que a da época de Jones, os animais explorados começam a discutir sobre o tema.

Por fim, acabam mortos por serem cúmplices do porco Bola-de-neve-da-Buchecha-Vermelha. E assim, aos poucos, os animais vão sumindo da fazenda. Os porcos que restam começam a caminhar sobre duas patas.

Esse final genial do livro corrobora a ideia de união entre os porcos e os homens, conquanto o resultado dessa parceria não seria uma solução para a ciência e a cultura dos homens, mas, sim, um impulso para animais de quatro patas subirem ao púlpito do poder político.

______

José Osmir Bertazzoni, Jornalista e Advogado.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima