Queremos nosso Observatório Astronômico de volta

José Machado

 

Na edição do último dia 5 do corrente mês, a prestigiosa Tribuna trouxe a estarrecedora matéria intitulada “Perto de completar 29 anos, Piracicaba perde Observatório”, referindo-se ao Observatório Astronômico “Elias Salum”, inaugurado por mim em 02/10/1992. Obviamente me bateu uma enorme tristeza e preocupação e decidi me posicionar.

No decurso do meu primeiro mandato como prefeito de Piracicaba, lá pelos idos de 1991, se não me engano, pediu-me audiência a então existente (não sei se ainda existe) Associação dos Astrônomos Amadores de Piracicaba, tendo o saudoso Elias Salum à frente. Ele e seus confrades trouxeram-me nessa audiência o projeto para implantação de um Observatório Astronômico, cujo local de instalação já estava prévia e devidamente negociado com a alta administração da ESALQ. Desde logo, simpatizei-me com o projeto, bastante singelo, contudo, impregnado de um conteúdo educativo inquestionável. Comuniquei ao grupo que me comprometia a encaminhar o projeto para Maria Cecília Carrareto Ferreira, a Ciça, que era a Secretária de Educação, para sua apreciação e avaliação, e que, em breve, voltaríamos a conversar. Percebi que eles leram nos meus olhos o brilho do entusiasmo e saíram da minha sala felizes e esperançosos.

Não demorou muito e a Ciça me trouxe a sua opinião, igualmente entusiástica, de que o projeto era muito pertinente e que havia espaço orçamentário para implantá-lo. Na verdade, a tarefa da Prefeitura era construir um espaço físico de modestas dimensões num local cedido pela ESALQ, às margens da rodovia Piracicaba-Rio Claro, no qual seriam instalados adequadamente os equipamentos de observação (cúpula, telescópios, etc.) e uma sala de aula, além de outros modestos espaços de apoio, tudo devidamente detalhado no projeto. Tais equipamentos seriam arrendados e a sua operação, associada a atividades didáticas, seriam objeto de um contrato com equipe especializada. Bingo. Bati então o martelo e autorizei a implementação do projeto. Lembro-me perfeitamente que Elias Salum chorou na minha frente e me deu um forte abraço quando lhe comuniquei essa decisão.

Acompanhei de perto o andamento das obras, enquanto minha imaginação viajava, ansiosa pelo impacto que a observação dos astros no céu causaria nas crianças. Olhar os céus e ver o brilho da lua, do sol, das estrelas, é algo que normalizamos desde a mais tenra idade, sem compreender direito a complexidade gigantesca e misteriosa do espaço sideral. O Observatório traria para as crianças, e também aos adultos, o socorro da explicação científica. Sim, a Terra gira. E é redonda!  O significado disso é incomensurável nos dias obscuros de hoje, quando o negacionismo tosco tenta bloquear a inteligência humana.

Não me convenci sobre as explicações do atual governo para a desativação do Observatório. Dizer que ocorriam problemas de manutenção e que o espaço estava ocioso em razão da pandemia configura uma argumentação pobre, senão cínica. A pandemia é conjuntural e atinge outros projetos públicos e não apenas esse. Já a questão da manutenção, convenhamos, cuidar dela é da alçada precípua da própria Administração, não é? Que esforço administrativo e financeiro gigantesco de manutenção demanda um local tão singelo? De fato, o Observatório, repito, é um local singelo e o custo para sua operação não me parece fora de propósito, ainda que isso possa ser objeto de avaliação; afinal de contas, a Administração tem que zelar por esse aspecto indubitavelmente. O significado educacional, todavia, é gigantesco, de modo que o benefício sobrepuja enormemente o custo. Quantas pessoas, sobretudo crianças, visitaram o Observatório Astronômico nos últimos 29 anos, alguém sabe nos dizer? O que os educadores que acompanharam os seus alunos na visita ao Observatório ao longo dos anos pensam a respeito do impacto pedagógico sobre eles? E o que pensam os pais desses alunos?

Por outro lado, questionar o local onde se encontrava instalado o Observatório requer melhor explicação, pois, a escolha daquele local se deveu exatamente à natureza do projeto, pois a observação do céu, com equipamentos de elevada sensibilidade, requer um sítio imune, o mais possível, à interferência de fatores urbanos perturbadores, como barulho, visibilidade, etc. E, convenhamos, o local não é distante e nem de difícil acesso para a população, pelo contrário.

O fato é que o Observatório Astronômico de Piracicaba foi desativado e fará uma falta absurda. A atual Administração, nas palavras do Secretário de Educação, se comprometeu a trazê-lo de volta, em local e com as características técnicas supostamente mais adequados. Não há por que duvidar desse compromisso assumido, até prova em contrário. Cabe à cidadania e à Câmara Municipal que a representa estarem atentos a esse compromisso e cobrá-lo sistemática e diuturnamente.

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José Machado (PT), ex-prefeito de Piracicaba

1 comentário em “Queremos nosso Observatório Astronômico de volta”

  1. Bom dia! Foi com muito pesar que tomei conhecimento desse fato que no mínimo é lamentável.
    Estava planejando levar meu netinho de 8 anos para visitar o Observatório agora nas férias, pois ela é super interessado por tudo o que se refere ao espaço sideral. O que mais ele pede de presente é um Telescópio. Que decepção para ele que tanto gostaria de visitar o Observatório de Piracicaba.

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