Terceira dose da vacina: é importante e é viável?

J.F. Höfling

 

A imunologia surgiu na história da ciência de uma forma bastante peculiar, tendo evoluído em um âmbito bastante diferente de outras ciências. Enquanto por exemplo, a anatomia e a fisiologia aprofundaram seus estudos gregos em relação aos seres vivos, a imunologia surgiu dentro da medicina revolucionando, como uma nova arte de curar ou de prevenir doenças, calcada em aspectos novos da filosofia de visão da medicina: em lugar da cura das doenças, entendeu-se ser melhor “preveni-las”. Em uma época em que as doenças infecciosas arrasavam o mundo, as descobertas da bacteriologia (estudos sobre as bactérias) deram início à arte médica da cura.

Os fins dos Séculos 18 e 19 foram cruciais para o entendimento dessas questões relacionadas à cura das doenças e entendimento dos processos que levam um ser humano a ser impedido de ficar doente. O conceito de imunidade, no entanto, pode ter existido há muito mais tempo, conforme sugere o antigo hábito chinês de tornar as crianças resistentes à varíola, fazendo-as inalar pós obtidos de lesões cutâneas provenientes de pacientes em recuperação dessa doença. Foi a partir do surgimento da imunologia que, pela primeira vez, a medicina foi capaz de demonstrar a possibilidade de intervir no curso de uma doença. Os primeiros indícios de interferência na saúde de humanos, fizeram-se por meio de um instrumento imunológico: a vacina.

Muitos pesquisadores dedicaram a sua vida ao estudo desta disciplina, ao longo dos séculos, como Jenner, Pasteur, Von Bering, Paul Erlich e outros…a lista é grande. Resumidamente, a coisa funciona mais ou menos assim: Partimos do fato de estarmos albergando um organismo estranho em nosso corpo, como fungos, parasitos, vírus e bactérias. Estes, vão suscitar uma reação em nosso organismo, através de nossa estrutura orgânica de resposta à organismos estranhos a nós, já que, de modo geral, nos farão quase sempre adoecer. Dessa forma, toda uma estrutura de proteção que dispomos, como células especializadas, anticorpos, etc., é mantida sobre alerta. Os diferentes mecanismos de resposta tem como base de ação o reconhecimento do “próprio” e do “não próprio”, desencadeando processo imune contra o “não próprio”. O que é este conceito de não próprio… é o que estamos passando agora, vitimados por um ser “estranho ao nosso organismo” que nos faz adoecer, sofrer e nos levando a óbito, portanto, temos que erradicá-lo de nosso organismo.

Daí as vacinas, já amplamente confirmadas como um instrumento que pode nos salvar sem fazer mágica…apenas aproveitando a estrutura que dispomos e adquirimos ao longo da “evolução”. Acontece que a partir da consciência de nosso corpo em relação a esse “ser estranho”, começamos a produção de anticorpos, os quais vão combater, junto com outros componentes complementares à resposta orgânica, como por exemplo um tal de “complemento”. Mas acontece também que em muitos casos ele não dá conta do recado… poucos combatentes para erradicar milhões e milhões de vírus destruindo e se multiplicando sem parar. Bom, então temos que vacinar e aproveitar o que já sabemos e nos fez escapar de outras doenças… primeira dose, nossa resposta orgânica se põem em alerta iniciando a produção de anticorpos…mas ainda não é suficiente… então damos a segunda dose (de reforço) aumentando o nosso contingente de proteção, os anticorpos, agora capazes de enfrentar a voracidade desses pequenos seres em “nos destruir”, (ele não sabe o que está fazendo, ele só quer sobreviver como nós)… mas temos que levar em conta que essa resposta do nosso organismo, de modo geral, é mais ou menos equivalente para os seres humanos, mas…existem as diferenças individuais que contornam o esperado… quem são eles? Crianças muito pequenas, cujo desenvolvimento do sistema imune ainda não se completou, idosos acima de 70 anos, cuja capacidade imunológica está comprometida pelo envelhecimento celular e a capacidade de “reagir” àquilo que é estranho, e finalmente seres humanos com comorbidades cujas deficiências são motivos para “atrapalhar” o sistema imune. Então a “terceira dose”, a famosa, para quê?

Na verdade já fazemos isso em relação, por exemplo, à vacina da gripe nos imunizando todo ano… esse comportamento nada mais é do que dar mais um reforço ao nosso exército de “combatedores” de nossas doenças, reforçando, mais uma vez o nosso contingente imunológico. Então a idéia da terceira dose do agora, segue esse mesmo princípio: “reforçar” com mais uma dose a produção de anticorpos que já existe, a fim de minimizar o efeito do envelhecimento em idosos com relação à produção de anticorpos, maximizar o efeito de proteção aos indivíduos idosos com comorbidades e aplicar vacinas de diferentes tecnologias como a pfiser produzida com o RNA viral e tecnologias mais avançadas se comparadas com a coronavac etc.

Mas isso tudo deverá seguir as regras que já conhecemos na aplicação das vacinas ao longo dos anos, como por exemplo, a distância entre as doses, a fim de  não atrapalhar o sistema imunológico com muitas informações sobrecarregando nossa resposta orgânica, portanto, não antes de 6 mêses em relação a segunda dose. Primeiro serão os muito idosos, cuja fragilidade é um fato, depois os indivíduos com comorbidades e finalmente, os idosos acima de 60 anos.

Tenha-se como fato que, de preferência, as vacinas terão que ser diferentes das que tomamos anteriormente, afim de “reforçarmos” o nosso contingente ou nosso time com jogadores de outros times “diferentes”, como colocar o Messe e o Cristiano Ronaldo no time do brasil, mesmo com o Neymar, fazendo uma comparação simples… mas é mais ou menos isso.

Portanto, será viável a terceira dose se o governo tomar as providências cabíveis para que tudo isso se torne uma realidade.

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J.F. Höfling, professor da FOP/Unicamp

 

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