A explosão de suicídios entre os jovens

Rodolfo Capler

 

Em “O mito de Sísifo”, o filósofo existencialista Albert Camus, escreve: “Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Concluir que a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da Filosofia”. Camus descreve com exatidão a crise que toda pessoa enfrentará em algum momento da vida – cometer ou não cometer suicídio? Após vivenciar os horrores da Segunda Guerra Mundial, Camus é movido a questionar a razão de alguém continuar vivendo e não se matar – visto que a vida era injusta, os homens eram maus e o universo parecia não ter propósito algum.

Hoje continuamos a enfrentar fome, guerras, pobreza, injustiças e epidemias no mundo. Logo, a observação de Camus continua relevante; é o famoso “Ser ou não Ser” de Shakeaspeare, expresso em “Hamlet”. Decidir “existir” ou “não existir” permanece como o grande problema filosófico, não só do indivíduo, mas de toda uma geração.

A mais nova geração de jovens, conhecida como Geração Z, está lidando com essa crise existencial e respondendo que o suicídio (o não ser), é a melhor opção. O Fatal Injury Reports registrou um aumento de 46% por cento a mais de suicídios de jovens de 15 a 19 anos só no ano de 2015. Com a pandemia da Covid-19 a situação piorou inda mais. Segundo a matéria “Surge of Student Suicides Pushes Las Vegas Schools to Reopen”, publicada em 24 de janeiro de 2021 no The New York Times, num período de 8 meses de pandemia, o condado de Clark, em Nevada nos Estados Unidos, recebeu mais de 3.100 alertas de alunos que relataram pensamentos suicidas, possíveis lesões autoprovocadas (self-cutting), ou gritos de socorro. Só no mês de dezembro 18 estudantes haviam cometido suicídio, o que é o dobro do número de alunos que tiraram a própria vida no condado em todo o ano de 2019.[1] De acordo o Times: “Um aluno deixou um bilhete dizendo que não tinha nada pelo que esperar”.[2]

As razões dessa explosão mundial de suicídios entre os mais jovens são diversas. Consoante as autoridades da área da saúde mental, o “homicídio de si mesmo” é o encerramento de uma rota que na maioria das vezes começa com a depressão – suicidas, geralmente sofrem de transtornos mentais. De acordo com George Minois em sua “História do suicídio”, embora haja suicídios revolucionários (como os que ocorreram durante a Revolução Francesa no século 18), filosóficos (conforme descrito por Camus) e religiosos (como os efetuados pelos homens-bomba do Islã), a maioria dos suicídios praticados entre os jovens são considerados comuns. Suicídios comuns são motivados por questões sociológicas e psíquicas, como depressão, loucura, vingança, desespero, miséria, honra e solidão.

No caso dos centennials (membros da Geração Z), a solidão talvez seja o grande fator motivador de suicídios. Andrew Solomon em “Um crime da solidão” discorre sobre aquilo que acredita ser o maior risco do suicídio: “Pessoas que acreditam que ninguém sentirá falta delas contam com pouca coisa a servir de barreira entre elas e o ato final”. A solidão empurra os jovens para o abismo, porém por detrás dela se encontra o medo de viver. Conforme Søren Kierkegaard: “Quando a pior coisa que você conhece na vida é a morte, você quer viver, mas quando a pior coisa que você conhece na vida é a obrigação angustiosa de existir, então, nesse dia, você quer morrer”.

 Os jovens estão com medo da vida. Eles olham para o futuro e não veem perspectiva nenhuma. Temem catástrofes naturais, epidemias, uma possível terceira guerra mundial, novas recessões econômicas… O mundo que avistam no horizonte não é nada atraente; por isso a prática do suicídio lhes parece a alternativa mais viável.

Em vista disso, importa aos pais, educadores, líderes religiosos e empregadores responsáveis pela nova geração, lançar um olhar mais atento sobre os sinais de alerta emitidos pelos jovens; eles estão clamando por socorro. Precisamos jogar o bote salva-vidas para a juventude, discutindo o tema da saúde mental de todas as formas possíveis e em todas as circunstâncias. Dessa maneira, lares, escolas, universidades, empresas e ambientes religiosos precisam urgentemente promover campanhas de prevenção às doenças mentais e ao suicídio. Abordar o assunto de forma franca e aberta (como proponho com este artigo) é o único modo de salvarmos os mais jovens.

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Rodolfo Capler, teólogo, pesquisador e escritor; e-mail: [email protected]/Instagram: @rodolfocapler

 

[1] Surge of Student Suicides Pushes Las Vegas Schools to Reopen. Disponível em: < https://www.nytimes.com/2021/01/24/us/politics/student-suicides-nevada-coronavirus.html>. Acesso em: 14 agosto 2021

[2] Ibidem

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